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MUNDO

22/03/2016

Nova curadora: 'Caminho de Inhotim é produzir conhecimento'

Portuguesa Marta Mestre defende maior ‘adensamento crítico’ a instituto

“Em dez anos, Inhotim consolidou sua vocação: é um grande museu, majoritariamente ocupado por instalações site-specific, que propõem a relação arte e natureza em projetos de grande escala. O espaço que se abre agora é o de adensamento crítico, de tentar produzir algum conhecimento e criar conexões teóricas, para que Inhotim não se reduza a um megaprojeto de artistas consagrados.” A avaliação é de Marta Mestre, recém-nomeada curadora de Inhotim, ao lado do americano Allan Schwartzman e do alemão Jochen Volz.

Aos 35 anos, Marta foi indicada ao cargo e passou por um processo de seleção até ser anunciada, na semana passada, a curadora in loco do megamuseu no interior de Minas — Schwartzman vive em Nova York e Volz, em São Paulo. A portuguesa, radicada há seis anos no Rio, tece um discurso pouco estridente para o museu em que tudo é grandioso — a área de Inhotim equivale à de 300 campos de futebol, e seu orçamento é de R$ 42 milhões ao ano.

Discreta, Marta não alardeia a criação de novos pavilhões nem a compra de obras ou a construção de projetos de escala espetacular. Defende que o momento do megamuseu é, agora, de “produção de pensamento crítico”:

— A curadoria já organizou quem são os artistas, quais são os projetos, plantou as sementes e definiu a vocação do museu. Minha ideia é que Inhotim tem que ir para o futuro consolidando bem essas sementes fantásticas que foram plantadas dez anos atrás. Correndo o risco da metáfora fácil, como na natureza: depois das sementes germinadas, surgem as plantas, as flores, crescem os galhos para fora, mas também crescem as raízes no chão, que vão se conectando a outras raízes… Talvez esse processo orgânico explique o que gostaria de dizer quando falo de adensamento crítico.

Marta diz que precisa de tempo para se reunir com todas as equipes, mas sugere, por exemplo, que o museu passe a oferecer seus catálogos on-line, de forma que o visitante possa antecipar a experiência proposta pelo instituto. Também deve dar continuidade aos encontros e debates com o objetivo de “ativar” as galerias temporárias da instituição — Inhotim é composto por 19 galerias permanentes, como as dos artistas Miguel Rio Branco, Adriana Varejão e Claudia Andujar, e quatro temporárias, cujas mostras são rotativas.

— Gostaria de trabalhar num programa que possa fazer com que a experiência seja renovada a cada visita. Tem pavilhões que não dá para mudar, e por isso as quatro galerias temporárias serão prioridade. Essas galerias permitem mais ativações, podem dialogar com outros artistas. Num pavilhão temporário, por exemplo, podem haver releituras da coleção. Penso na criação de um programa que sobrepõe o (programa) fixo com algumas ativações temporárias.

Marta migrou para o Rio seis anos atrás. Veio para ficar nove meses e cumprir um estágio no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, instituição que escolheu para trabalhar quando o governo português lhe concedeu uma bolsa. No museu, encontrou Fred Coelho e Luiz Camillo Osorio, com quem criou laços profissionais e afetivos. Coelho, então assistente de Osorio, deixou o cargo para lecionar na universidade. Marta, assim, passou a ocupar o posto. Nos seis anos em que ela e Osorio lideraram o museu, o MAM do Rio viveu tempos áureos, embora seguisse com problemas financeiros.

“Grande interlocutor, profissional generoso e Fluminense fanático”, nas palavras da curadora, Osorio lhe confiou a curadoria de mostras e a organização de eventos no MAM. Marta assinou, entre outras, a exposição dos artistas Daniel Steegmann Mangrané e Philippe Van Snick. Organizou seminários sobre a relação com o público e debates sobre arte e psicanálise. Espécie de garota prodígio, a portuguesa cresceu em Beja, cidade de 28 mil habitantes. Filha do meio de uma professora que deu aulas a prisioneiros durante toda a vida, mudou-se para Lisboa na adolescência a fim de concluir os estudos. Depois migrou para Paris, onde tomou aulas de história da arte e se tornou mestre em Cultura e Comunicação. Em Portugal, editou obras de filósofos como Jacques Rancière.

— As relações profissionais na Europa ainda são muito hierarquizadas. Queria entender um pouco o que era trabalhar num país novo. Havia um discurso de otimismo no Brasil em 2010 que me dava muita energia. Essa ideia de país jovem era emocionante para quem vinha de uma Europa envelhecida, e eu queria ter essa experiência de trabalhar num país jovem e otimista — lembra.

O discurso otimista que envolvia o Brasil em 2010 caiu por terra nos últimos anos, e, em Inhotim, Marta verá também o reflexo da crise que atingiu o MAM do Rio e outras tantas instituições culturais do país (leia mais ao lado).

Antes de se mudar para Belo Horizonte, ela assina no Rio uma última mostra, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com inauguração prevista para 13 de maio. Lá, vai propor a revisitação da arte como “potência”, “liberdade livre”, tecendo uma “crítica à arte vista apenas como a produção de objetos”. Pode soar irônico a curadora estar migrando justamente para a “Meca” dos objetos de arte, com imensos pavilhões recheados de pinturas, instalações, esculturas ou fotos. Marta, porém, diz ver Inhotim com outros olhos:

— Inhotim não é uma experiência exclusiva de objetos de arte, é uma experiência de deslocamentos, é uma relação entre coleção e natureza. Não se trata apenas de ver uma coleção de grandes nomes, mas de mobilizar o corpo e a mente para um tempo-espaço específico, em que a coleção está, mas não é o único motor. Ou seja, Inhotim não é só uma coleção. É uma coleção com uma envolvência que a torna única e particular — afirma, para em seguida completar: —É claro que sabemos que muitos dos artistas de Inhotim têm os mais altos valores do mercado, e os processos de trabalho deles são custosos e implicados na lógica mercadológica. Ok, nós temos isso, mas ainda assim sabemos que a singularidade da arte está em sua utopia, sua liberdade, seu ócio produtivo, sua incerteza, e que precisamos deles para enfrentar o mundo em que vivemos.

Fonte: O Globo



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