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MUNDO

21/09/2016

Lusodescendente dá nova vida a uma arte ancestral portuguesa

Sónia Domingos nasceu na Suécia, no seio de uma família alentejana. Desde muito cedo aprendeu crochet na escola e com a ajuda da sua avó materna. A Conservação e Restauro de documentos históricos, área em que se licenciou, ocupam uma boa parte do tempo que dedica no Arquivo Nacional da Torre do Tombo onde trabalha. Nos últimos anos tem desenvolvido uma série de peças e instalações artísticas a partir do crochet que contam com participantes dos quatro cantos do mundo e tem demonstrado como uma arte ancestral pode ganhar uma nova vida e novos contextos de criação artística na atualidade.

Conte-nos um pouco da sua história?
Os meus pais eram emigrantes vindos do Alentejo. Foram para a Suécia numa situação privilegiada, o meu pai foi primeiro, como trabalhador qualificado na área da soldadura de construção naval, e mais tarde mandou vir a esposa como era habitual naquela altura.
Crescer na Suécia foi uma experiencia absolutamente fantástica para mim porque foi um pouco como aquilo que vemos nas séries nórdicas de animação infantil – liberdade e traquinices o dia todo. Fiz o ensino primário completo na Suécia e nessa altura, eles ensinavam economia doméstica onde aprendíamos a cozinhar, a costurar, a bordar, a fazer crochet. Lembro-me que a primeira peça de crochet que produzi, foi uma cobra às riscas, uma cobra do gelo por ser branca e azul.
Também tive a sorte de ter tido a minha avó materna, em casa, a tomar conta de mim. Era a típica alentejana, vestia negro e fazia tricot o dia todo, a maior parte das vezes para nada, simplesmente para se entreter, acho que aquilo era, no fundo, a ligação dela com Portugal. Quando eramos mais pequenos ainda usávamos algumas peças, mas depois de crescidos já não as queríamos mas ela continuou a fazer aquilo o dia todo. Esta imagem acabou por me influenciar, e a minha avó lá me conseguiu ensinar a base do tricot.

E quando veio para Portugal?
A partir dos 11 anos quando vim para Portugal nunca mais peguei nisto, nos anos 80 o tricot e crochet era algo que não existia no ensino em Portugal. Só voltei a pegar no tricot e no crochet quando um dia senti necessidade de ocupar o meu tempo livre, de fazer novos amigos, e juntei-me a pequenos grupos que timidamente se começavam a juntar aqui e ali para fazer tricot e crochet, na altura em bares de Lisboa, por exemplo.

(...) O tricot e o crochet não são só lavores, não é só economia doméstica, devemos libertar-nos destas conotações (...)

Foi assim que rapidamente me apercebi que a minha abordagem em relação à matéria era muito diferente das restantes pessoas. Enquanto os outros seguiam a tradição, ao fazer aquilo que tinham aprendido com as avós e com as mães, faziam colchas, mantinhas para o bebé, os casaquinhos e os cachecóis, eu apercebi-me que não era bem aquilo que queria fazer e gostava. Estava um pouco à parte, a minha abordagem era mais artística, mais livre.
Eu produzo ideias… em lã! A uma dada altura descobri o ‘Yarn Bombing’ e achei um conceito deslumbrante. Era uma aplicação fantástica para as minhas criações, trata-se de personalizar, adaptar e apropriar-nos do equipamento urbano, da estatuária, da cidade… Criar situações totalmente novas na cidade. O objetivo é dar uma dimensão mais humana à cidade e surpreender as pessoas. O que realmente é interessante nisto é olhar para uma árvore e percecionar uma outra forma, por exemplo um polvo de cabeça para o ar. Tudo pode ser modificado e a pessoa pode criar a sua própria peça artística a partir daquilo que já lá está, com recurso ao crochet. Trata-se de criar magia onde ela não existe. No início o ‘Yarn Bombing’ era clandestino, um pouco como o Grafiti, fazia-se às escondidas, durante a noite, hoje já não, é um happening, são verdadeiros eventos, é uma forma de arte urbana muito bem aceite.

O que é o ‘Yarn Bombing’?
O ‘Yarn Bombing’ é uma corrente, é um movimento artístico. Há artistas internacionais, muito conhecidas que são efetivamente convidadas para intervir em estátuas, ações de marketing, para chamar a atenção para ações de solidariedade, ou problemas sociais. Foi assim que o ‘Yarn Bombing’ começou a destacar-se enquanto movimento. Existem fotos onde, no início do movimento, os artistas aparecem em poses junto das suas peças com a cara vendada para reservar a identidade, era o crochet de guerrilha. Embora geralmente muito bem aceite ainda é uma situação que não está bem prevista na lei e devemos ter alguns cuidados e principalmente não danificar nada.

Qual é o objetivo das suas criações?
O meu objetivo é criar Felicidade, fazer as pessoas felizes. As pessoas aproximam-se, sorriem, acham giro, há uma emoção e o que eu quero é isso. Um despertar de emoções, pôr as pessoas mais atentas ao meio que as rodeia, a gostar mais daquilo que têm. Imagine que vai para o trabalho, num dia cinzento e de chuva e encontra uma árvore destas, por exemplo, acredito que vai ter tendência para sorrir. Tenho-me apercebido nos meus projetos que as pessoas ficam verdadeiramente contentes com isto e querem muito participar nas ações. Há também um outro lado, o lado mais íntimo da Sónia, que precisa de materializar coisas, ideias e sentimentos para os visualizar ou simplesmente para se ver livre deles. É quase como um escape para exorcizar sentimentos, mas também uma necessidade de criar formas, ideias com estrutura e cor, de ver a cor em formas e emoções, de crochetar palavras e dar-lhes dimensão.

E as pessoas como é que participam?
Em 2014 organizei um projeto para viver um dia dos namorados diferente a que chamei “As árvores também namoram – Um Mar de emoções arbóreas”. Era uma história de encantar com um rei e uma rainha e muito amor e amizade, em que a natureza se apoderava dos nossos sentimentos para florescer. O desafio foi que as pessoas pensassem em amor e em amizade e os exprimissem em crochet. Houve pessoas de diversas partes do mundo que enviaram pequenas peças, flores, corações, demonstrações de amizade e de amor. Acabei por envolver também a turma da minha filha, que fizeram flores em plástico com a professora, uma vez que com 6 anos não sabiam crochet. Este projeto acabou por envolver emoções vindas de todo o lado e isto foi percetível no resultado final. Quando montámos a peça tinha estado a chover torrencialmente há semanas e, de repente, no dia combinado fez sol e as crianças apareceram, vieram com os pais, e apareceram muitas pessoas que eu nem sequer estava à espera e não conhecia sequer. Isto é que é interessante. Organizei tudo pela internet, fiz apelos
para a participação das pessoas e, na verdade, apareceram mais de 50 pessoas e estavam todas ali, a unir-se e a trabalhar, em favor de um objetivo – unir arte, amor e amizade. Foi uma entreajuda fantástica e muito interessante pois embora fosse uma criação artística minha, não sabia exatamente como seria o resultado final, visto que pedi as pessoas para aplicarem os corações e as flores como queriam e assim apoderarem-se da criação. Fiquei maravilhada a ver como tudo o que tinha imaginado ganhava forma na liberdade de expressão de cada um.

Que países participam nas criações?
A Bélgica, França, Luxemburgo, Itália, Alemanha, os Estados Unidos, Canadá e Austrália. É fantástico, realmente a internet permite-nos isto. Lançamos uma mensagem e as pessoas apaixonam-se pela ideia, envolvem-se e enviam peças. Têm vindo também muitas peças das nossas ilhas, da Madeira e dos Açores. É maravilhoso pegar nas peças e sentir nelas as pessoas e perceber o que está acontecer.

(...) O crochet como expressão artística libertou-se dessa abordagem simples e assume formas complexas e caóticas em que deixa de haver a repetição de um padrão para passar a ser totalmente dominado pelo artista e não o contrario (...)

A Portugalidade é um dos temas em que mais se inspira nas suas criações. Porquê?
Eu enquanto pessoa que não cresceu em Portugal, não consigo ver o país da mesma forma que a maioria dos portugueses o vêm. Por vezes confundo um pouco os conceitos de Patriotismo com Nacionalismo e muitas vezes assusto um pouco as pessoas. Eu quero falar da Nação Portugal, algo que me apaixona e quero transmitir a minha forma de a ver, com amor e orgulho. Isto sem cair em preconceitos políticos. Talvez seja a minha perspetiva de ‘ex-emigrante’, muitas vezes sinto que estou noutro patamar, sem entender os preconceitos e os medos. Eu gostava que nos envolvêssemos mais com a nossa nação, com os nossos dias, os nossos feriados, não só participando em festas ou manifestações organizadas, mas também pensar um pouco naquilo que significam e interiorizar a história e perceber porque é que as pessoas que nos visitam nos adoram.
Um dos trabalhos que fiz foi uma instalação alusiva ao 25 de Abril a que chamei “Cravos de Abril”. Também teve uma parte emocional muito grande e a adesão fantástica. O que mais me emocionou foi uma pessoa, no Canadá, que me enviou várias mensagens a dizer que tinha estudado na escola a revolução e que a iniciativa a permitia viver também as comemorações e assim manifestar-se também. O projeto demorou apenas dois meses a fazer, trabalhámos imenso. Foi tudo montado e maioritariamente feito por um grupo de 8 pessoas. Eu defini esteticamente a instalação, e foram pedidos somente quadrados verdes e cravos vermelhos e toda a comunidade de crochet, um pouco no mundo inteiro, participou na produção dos quadrados que compunham a peça. A ideia foi cobrir a Fonte do Neptuno, no Largo da Estefânia, em Lisboa, com uma faixa verde em crochet cheia de cravos, houve também quem tivesse feito borboletas, porque de alguma forma entendiam o acontecimento assim. Tem tudo a ver com a forma como as pessoas assimilaram e interpretam o 25 de Abril. Nesta instalação em particular, houve vários portugueses em França muito entusiasmados em poder participar. A ideia era: vem viver um 25 de Abril diferente, vem viver o teu 25 de abril.
No próprio dia enquanto preparávamos a instalação havia diversos carros que apitavam enquanto passavam e davam voltas à rotunda, houve motas que pararam e vieram ajudar, havia pessoas que nos vinham interrogar acerca do que estávamos a fazer, divertimo-nos imenso, chovia, estávamos encharcados mas muito realizados. Foi uma instalação muito bem acolhida pelo comércio local e as pessoas apreciaram bastante.

Atualmente está a elaborar algum projeto?
Atualmente estou a trabalhar numa peça para celebrar os 875 anos de Portugal. A peça consiste em 875 quadrados com 30 cm e cada quadrado representa um ano, desde 1143, do Tratado de Zamora, até 2018. A peça é produzida com lã de ovelha da Serra da Estrela muito pouco processada, quase em estado natural. Ainda estou á procura de apoios para adquirir a lã, mas tem de estar pronta daqui a 2 anos.
Imagino a peça como um rolo enorme, como se de um documento em pergaminho se tratasse. Quero representar a dimensão brutal que nós, portugueses, temos e que as pessoas sintam o peso da nossa história de uma forma diferente - visualmente. A peça destina-se a estar exposta numa sala com vários quadrados destacados mediante aquilo que simbolizam na história. Será enorme, 265 metros de comprimento, Portugal em todo o seu esplendor em lã da Serra da Estrela que foi o material que encontrei mais próximo do pergaminho de ovelha, suporte de quase todos os documentos antigos. Não pretendo que a peça seja demasiado intelectual, é para chegar às pessoas e ser entendida e apreciada por todos. Gostava de envolver as pessoas na obra e fazer com que elas também a sintam, façam parte dela e criar uma conexão profunda com o objeto.

O crochet atual assume formas diferentes daquilo que as pessoas estão habituadas?
As pessoas estão muito habituadas ao quadrado de crochet branco, o crochet bidimensional e geométrico com uma função específica. É assim que nós o percecionamos, um naperon, uma toalha, uma manta. O crochet como expressão artística libertou-se dessa abordagem simples e assume formas complexas e caóticas em que deixa de haver a repetição de um padrão para passar a ser totalmente dominado pelo artista e não o contrario. Tenta-se reproduzir a natureza e o quotidiano, imaginando objetos tridimensionais, tudo se pode construir com crochet, flores, árvores, frutas, corpos, animais. Claro que ainda fazemos mantas e almofadas. Mas são explosões de cor e criatividade.

(...) É por esta nova abordagem mental que se tem ao crochet contemporâneo, que ele hoje em dia está-se a tornar tão fashion, é o novo yoga, a nova meditação (...)

É por esta nova abordagem mental que se tem ao crochet contemporâneo, que ele hoje em dia está-se a tornar tão fashion, é o novo yoga, a nova meditação, porque obriga as pessoas a sair do quadrado bidimensional e a expandirem-se. É um material com uma dimensão extremamente humana, é fofo, é colorido, tem estrutura e permite construir formas. A partir de um fio, qualquer pessoa, de qualquer idade pode construir uma forma, eu acho isto extraordinário. O tricot e o crochet não são só lavores, não é só economia doméstica, devemos libertar-nos destas conotações. A definição da textura, da estrutura, o material, o instrumento, a combinação de cores, tudo são formas de desentorpecer o cérebro.

Fonte: Mundo Portugues



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