home > notícias

MUNDO

20/01/2017

A Europa a abrir a boca de espanto com a música portuguesa

Onde estavam escondidos que nunca demos por vocês? Era a interrogação dos profissionais da música europeus quando via ao vivo, no Eurosonic, na Holanda, Marta Ren, The Gift, Gisela João, Throes + The Shine, Best Youth ou DJ Ride. A operação superou expectativas, mas é apenas o princípio.

Não vale a pena romantizar. Portugal é uma realidade comercial pequena. O mercado é exíguo. Para um músico poder viver apenas da música ou tem de ter grande abrangência, muitas vezes acabando por condescender com a sua arte, ou então desdobrar-se por diversos mercados, por mínimos que sejam. Não é apenas uma questão de qualidade ou de persistência. É de contexto.

Mas mesmo que assim não fosse procurar novos espaços de exposição, mais do que imperativo, é a condição natural dos dias de hoje. Já não é uma questão de se ser competitivo, mas de criar o mínimo de condições possíveis para sustentar um percurso.

Claro que existiram casos de exportação no passado e outros se têm afirmado nos últimos anos (Madredeus, Mariza, Mísia, Ana Moura, Buraka Som Sistema, Moonspell, Legendary Tigerman, António Zambujo, Dead Combo, Rodrigo Leão, The Gift, Moullinex, Batida, Príncipe DJs, Paus, entre outros), com graus variáveis de consistência, mas essas são algumas excepções que confirmam o desconhecimento que ainda persiste no exterior sobre o que se vai fazendo em Portugal.

Daí que o facto de Portugal ter sido o país em destaque no último Eurosonic, a feira que é conferência e também festival, uma das montras mais credíveis que os profissionais da música na Europa têm à sua disposição, tenha sido tão relevante. O evento que aconteceu de 11 a 14 de Janeiro, em Groningen, Holanda, recebeu 23 grupos e artistas portugueses e quase 100 profissionais, entre promotores, agentes, managers, produtores ou editores.

Pela primeira vez a Europa profissional da música, e as cerca de 40 mil pessoas que ocorreram às dezenas de concertos que aconteceram diariamente em mais de 40 salas, tomaram o pulso à diversidade e qualidade da música actual feita em Portugal, numa estratégia concertada desenvolvida por uma estrutura orientadora, a Why Portugal, que se tem vindo a assumir como plataforma para a internacionalização da música portuguesa.

O efeito foi de surpresa. Foi como se a Europa tivesse tido contacto com uma realidade que lhe era desconhecida. O luso-francês Fernando Ladeiro-Marques, director do evento francês MaMA, dizia-nos que há muita qualidade em Portugal, mas visto de fora “é como se a música portuguesa não existisse” e Ed Rocha Gonçalves dos Best Youth sintetiza o sentimento geral acerca de como é percepcionada a música portuguesa na actualidade.

“A pergunta que invariavelmente nos fizeram em todas as entrevistas que demos foi: mas porque é que só agora estamos a conhecer esta música? Ou seja, porque é que só agora estamos a constatar que existe tão boa música em Portugal para lá do fado?”  

Há quem sustente que uma representação colectiva não constitui uma mais-valia, com o argumento que dispersa. Não foi isso que se sentiu. Pelo contrário, fica-se com a ideia que no caso de um país periférico e pequeno como o português, dar uma imagem de conjunto é essencial para se fazer notar. Independentemente das possibilidades de comunicação abertas pela internet estar neste tipo de acontecimentos é importante. John Gonçalves, um dos músicos e também manager dos The Gift, um dos grupos que mais tem lutado pela exportação nos últimos vinte anos, sabe-o bem. Em alguns momentos, diz ele, no edifício multiusos Oosterport, onde os profissionais se encontraram, reuniram, negociaram ou conferenciaram, “olhava à volta e parecia que era um sonho, com tanta gente portuguesa, no espaço lounge do AICEP, nas conferências, as bandas a tocar, a indústria o dia inteiro a operar.”

Para ele, que já percorreu as mais importantes feiras do mundo – da Popkomm de Berlim ao South By Southwest de Austin – solitariamente com os Gift, o que aconteceu foi “inacreditável”. Em todos os acontecimentos onde esteve com os Gift, diz ele, “era complicado darmo-nos a conhecer. Por mais que se tente, se faça um bom trabalho, se toque ou se faça contactos, és sempre apenas mais um no meio de mil.” Nas reuniões onde participou ao longo dos anos defendeu sempre “que era preciso a indústria organizar-se e fico contente que se tenha conseguido agregar agentes, managers, artistas, editoras e uma série de entidades.”

Na sua visão o que aconteceu não é o fim, mas o princípio de algo. Em 1990 quando o organismo estatal francês Bureau de Export lançou o seu trabalho, só dez anos depois fez um relatório de balanço, recorda. “Desta primeira pedra que foi o Eurosonic, e se existir um trabalho continuado, penso o mesmo: daqui a dez anos faremos contas e tenho a certeza que os miúdos que agora têm 20 anos olharão para a sua actividade de outra forma”, afirma.  

Grupos como os The Gift até fazem parte do circuito dos festivais e das câmaras municipais – “não nos queixamos”, assume John Gonçalves – mas essa não é uma realidade para todos. Um exemplo: os Memória de Peixe. Deram um excelente concerto, num pequeno clube em Groningen, mas a sua música em Portugal nunca fará parte desse roteiro. “É por isso que têm de ir lá para fora”, diz John Gonçalves, “conquistando o seu espaço e os diversos nichos. Temos de dar oportunidade a toda a gente criativa que aí anda para saírem porque talento existe.”

Uma coisa é certa. Foi transmitida uma imagem do país que não existia. “As pessoas perceberam que existe uma realidade heterógenea, da Gisela João ao DJ Ride, para já não falar dos que não vieram, do David Fonseca à Rita Redshoes ou ao Tigerman, que poderiam ter estado. Mas é importante perceber que aquilo que aconteceu não é positivo apenas para os que foram, como também o é para os que não foram.” Como dizia Márcio Laranjeira, da editora Lovers & Lollypops, numa das conferências sobre Portugal, “tudo ajuda a criar curiosidade sobre a música de um dado país. Não é apenas a música, é toda a vida cultural, ou os acontecimentos e aquilo que as pessoas sabem desse país.”

Talento existe. Nisso há consenso. “Muito mais do que em países de maior dimensão”, diz o conhecedor Fernando Ladeiro-Marques. Público interessado também. Viu-se isso na forma entusiasta como se relacionou com a soul-funk de Marta Ren & The Groovelvets, o fado de Gisela João, a pop orquestral de Rodrigo Leão na companhia de Scott Matthews, o rock segundo os Glockenwise, o experimentalismo dos Memória de Peixe, a delicadeza do homem-orquestra Noiserv ou dos First Breath After Coma, ou com as novas linguagens afro-portuguesas dos dançantes Batida, Throes + The Shine, Octa Push ou DJ Firmeza.

Estiveram presentes consagrados, como os The Gift, mas em fase de relançamento com novo álbum a editar em Abril, e novatos nestas andanças como os Happy Mess, Holy Nothing, :Papercutz, We Bless This Mess ou os Best Youth. O concerto inicial dos Gift nem correu especialmente bem por questões técnicas, assume John Gonçalves, “mas depois fizemos uns cinco showcases e um especial para a Arte TV o que foi reparador e conseguimos cumprir com os nossos dois objectivos.” Comunicar ao público, imprensa, promotores e nas reuniões de trabalho que têm novo álbum, com Brian Eno. E também conseguir acordos com alguns agentes de concertos. “E isso foi conseguido porque fechámos um acordo importante com uma grande agência na Alemanha, e nas próximas semanas vamos tentar o mesmo para Inglaterra.”

Saldo positivo é também o veredicto dos Best Youth. “Não sabíamos com o que contar”, assume Ed Rocha Gonçalves, “mas ficamos logo contentes com a proposta de tocarmos duas vezes e a partir do momento em que fomos anunciados recebemos convites para fazer coisas lá – o concerto no clube Vera foi filmado, um dia antes tocámos para o Arte TV e ainda fizemos um showcase acústico pelo meio. O concerto no Vera estava quase cheio às 20h da noite o que é raro segundo nos disseram e tivemos muitos contactos com produtoras, agências e jornalistas.”

Ainda é cedo para fazer um balanço definitivo sobre o que aconteceu mas, para já, Nuno Saraiva, da Why Portugal, avança que na reunião dos 104 festivais que fazem parte da rede europeia ETEP (European Talent Exchange Programme), que decorreu no último sábado, e durante a qual os promotores relatam as intenções de programação, surgiram logo três nomes nas listas principais: Noiserv, DJ Ride e Throes + The Shine. Também acordos de agenciamento foram estabelecidos, como aconteceu com os The Gift, ou com os Happy Mess e We Bless This Mess, com a Boomerang booking, para o mercado holandês. “Mas nos próximos meses vai haver novos desenvolvimentos, com agências e festivais a pegarem em diversos projectos”, garante Nuno Saraiva, “até porque em Março vai haver também o South By Southwest, para onde foram convidados seis ou sete artistas, numa expressão de toda esta estratégia, sendo o nosso desafio compor uma missão até lá, angariando os apoios necessários.”

Nos meses de preparação do Eurosonic, a Why Portugal conseguiu reunir apoios tanto do ministério da cultura, através da DGArtes, “nomeadamente para as viagens dos artistas – pelo menos os primeiros dez confirmados”, diz Nuno Saraiva, “e também envolver o AICEP, a Audiogest e a GDA.” Agora, afirma John Gonçalves, “é importante que as associações e entidades como a SPA, DGA ou Audiogest entendam que isto não pode acabar. Não estamos a falar de pagar a artistas ou técnicos, mas de apoios partilhados ao investimento nas logísticas, por exemplo.”

Se isso acontecer, daqui a alguns anos, vamos olhar para trás e perceber que aquilo que aconteceu no Eurosonic foi um momento decisivo para a afirmação no mundo da música feita em Portugal.

Fonte: https://www.publico.pt/2017/01/14/culturaipsilon/noticia/os-concertos-acabaram-comeca-o-negocio-no-eurosonic-1758297



NOTÍCIAS RELACIONADAS
25/09/2017
"As raças mais trabalhadoras no Brasil são os japoneses e os portugueses"
25/09/2017
Mostra reúne destaques do design brasileiro, em Portugal
22/09/2017
Este são os cinco destinos mais pacíficos do mundo e Portugal está na lista
22/09/2017
Portugal é um dos únicos 15 países no mundo com políticas de apoio à família - Unicef
22/09/2017
A razão real de ir a Portugal talvez seja a de que os brasileiros desejam sentir um gostinho de civilização
22/09/2017
O que nos separa é o que nos une