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MUNDO

02/03/2017

Novo festival em Portugal promove mistura de linguagens artísticas

 Em sua primeira edição, BoCa ocupará espaços inusitados em Lisboa e no Porto

Uma intervenção de pen drives pelas ruas, um museu do skateboard, uma instalação de máquinas de flipper num museu de arte antiga, artistas visuais de rua criando obras de palco, ou artistas de palco se apresentando em galerias, boates e por aí vai... São essas e muitas outras propostas, heterodoxas e inusitadas, que modelam o rosto do mais novo projeto de artes contemporâneas de Portugal, a BoCA. A partir do próximo dia 17, as cidades de Lisboa e do Porto irão receber o festival bienal cujo formato — multifacetado e heterogêneo — expressa a condição da arte contemporânea em nosso tempo: indefinível.

Idealizada pelo encenador português John Romão, de 32 anos, a BoCA foi criada a fim de demolir limites e convenções que separam artes e linguagens. Mas além das rupturas, busca propor e potencializar relações criativas entre artistas de diferentes campos, assim como levá-los a criar em habitats não naturais, ou seja: em arquiteturas e espaços diferentes daqueles em que comumente trabalham.

— Uma coisa que sempre me ofendeu na condição de espectador é a forma como determinado campo artístico trata outro: sempre de um modo exótico ou excepcional — diz Romão. — Por exemplo, um museu que organiza um concerto “porque” este se enquadra com uma exposição que está ali. Esta necessidade de justificação do outro enquanto ser estrangeiro está completamente desvinculada do que acontece hoje nas práticas artísticas contemporâneas. Cada vez mais artistas entram em territórios que saem da sua “especialização”.

CAMADA POLÍTICA

Com direção artística e curadoria de Romão, a 1ª edição da BoCA apresentará suas ações entre os dias 17 e de março e 30 de abril. Ao todo, serão 40 propostas artísticas multilinguagem apresentadas em 35 diferentes espaços, como teatros, cinemas, galerias, museus, boates e lugares públicos. No fundo conceitual de sua proposta estética há também uma camada política. Romão destaca a dimensão libertária e expansiva das artes de hoje como contraponto, ou mesmo um antídoto a um mundo pós-globalização que tem se fechado e interditado a relação entre as diferenças — vide a crescente crise migratória, a ascensão da direita, entre outros gestos nacionalistas-protecionistas, ou melhor, impeditivos.

— Vemos o mundo a adotar políticas extremistas e nacionalistas, com democracias iliberais entrando em cena para refutar as liberdades conquistadas, a dignidade, o sentido de igualdade que as sociedades contemporâneas levaram décadas a construir — diz. — E essa igualdade, esse desejo de horizontalizar o que era hierarquia, reflete-se em grande parte nas práticas artísticas contemporâneas. Os artistas contemporâneos têm respondido a esse tempo com estratégias expansivas. Tratam o contemporâneo como um campo aberto, com cada vez menos fronteiras, e assim respondem como agentes políticos. Vejo que as práticas artísticas contemporâneas tornam-se assim uma bomba de oxigênio diante de um mundo político que se fecha cada vez mais e parece querer oprimir a diversidade e o pensamento crítico.

Tais premissas estão evidentes nas propostas artísticas apresentadas na BoCA, constituídas a partir de relações entre artistas de diferentes meios, assim como a partir da mistura de materiais, mídias e tecnologias diversas. Romão observa que "os artistas têm usufruído da sua liberdade na utilização de mídias que não lhes pertencem, que escolhem tocar, conhecer, pensar, e de que não são especialistas", diz. Ao elaborar que a "era da especialização está ultrapassada" o curador afirma que as obras contemporâneas parecem respirar "transversalidade e hibridez".

Com background artístico vinculado à cena teatral, Romão pensa a bienal, também, como um laboratório aberto à experimentação nas artes performativas, ao vivo. Na BoCA, o teatro se aproxima de linguagens estritas, como a dança, a performance, a música, o cinema, as artes visuais e tecnológicas, sempre em busca de ampliar as possibilidades criativas dos artistas convidados. Fundador e diretor do Colectivo 84 e colaborador constante de artistas como o autor e diretor argentino Rodrigo García e o encenador italiano Romeo Castellucci, Romão terá a presença de ambos na BoCA. O primeiro levará a instalação “Pinball Bosch” ao Museu Nacional de Arte Antiga, que abriga a obra que inspira a proposta, a pintura “A tentação de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch. Já Castellucci apresentará duas recentes criações de sua companhia, a Societas: “Ethica. Natura e origine della mente” (dias 25 a 27/3), no Teatro Nacional D. Maria II, e “Júlio César — Peças soltas” (dias 30 e 31/3), no Teatro Nacional São João.

— Para a obra de Rodrigo, compramos uma máquina de flipper que está sendo completamente transformada, com novas imagens, sons e textos originais gravados. A ideia da instalação no museu busca transformar aquele espaço num autêntico inferno, de vício pelo jogo, de puro entretenimento, e que ocupará uma das salas da coleção de arte antiga do museu — conta. — Ou seja, o público que está no museu para ver arte antiga vai confrontar-se com um objeto de arte contemporânea, enquanto o público das artes performativas, que conhece o trabalho de Rodrigo, vai deslocar-se a um museu de arte antiga para ver uma instalação de um dramaturgo-diretor de teatro.

O SKATE COMO SOBREVIVÊNCIA

Entre as demais propostas desviantes de Romão estão, por exemplo, a presença de Tianzhuo Chen e do coletivo Asian Dope Boys. Expoentes da nova arte contemporânea da China, eles misturam referências religiosas chinesas com butô japonês, o mundo voguing com a moda para criar instalações cênicas que funcionam entre o belo e o bizarro, como rituais sacro-profanos — para a BoCA, eles apresentarão uma nova proposta criada ao lado da DJ nepalesa-tibetana Aïsha Devi. Da Alemanha, o artista visual Aram Bartholl propõe a intervenção “Dead drops”, circuito de pen drives que serão cimentados em edifícios públicos e funcionarão como portas abertas ao compartilhamento livre de dados. A criação do artista visual russo Kirill Savchenkov, “The museum of skateboarding”, observa o skate como uma plataforma de sobrevivência nas cidades.

Entre as propostas de Portugal, o coletivo Crinabel Teatro irá criar uma peça inédita a partir da série de fotografias “A play of selves”, de Cindy Sherman; os artistas visuais João Maria Gusmão e Pedro Paiva levarão a exposição “Avantesma fantasma” a um palco de teatro; os performers Ana Borralho e João Galante apresentarão o concerto-instalação “Estrelas cadentes” em um espaço não teatral. A BoCa elegeu, também, quatro artistas residentes para fazer obras sob encomenda: Salomé Lamas e Musa Paradisíaca (Portugal), François Chaignaud (França) e Tania Bruguera (Cuba/EUA).

— Ultrapassada a época da especialização, hoje vivemos numa sociedade em que os campos que a constituem, à semelhança dos campos artísticos, são expansivos, são líquidos e por isso se misturam. Propus-me, por isso, pensar o outro de forma inclusiva, respeitando as linguagens que os artistas contemporâneos têm vindo a operar — diz Romão. — O conceito da bienal BoCA surge, por isso, como um espaço de exceção que fomenta a criação e a produção sem fronteiras, entre territórios artísticos, entre cidades e países, com a intenção de proporcionar ao público uma abertura ao outro, ao desconhecido, ao incerto, exatamente como as artes contemporâneas têm vindo a dialogar entre si.

Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/novo-festival-em-portugal-promove-mistura-de-linguagens-artisticas-20985882


 



 



 



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