home > notícias

MUNDO

24/04/2017

Edifício Brasil Portugal: histórico e imponente

A obra do arquiteto Fernando Pinho, tombada pelo patrimônio cultural de Bauru, é um dos marcos do modernismo no interior paulista

O edifício Brasil Portugal, no cruzamento das avenidas Rodrigues Alves com Nações Unidas, é um ícone do modernismo, do final da década de 1950. Os arquitetos Maria Teresa de Pinho Meca e Adalberto da Silva Retto Jr. comentam a importância do prédio no contexto do modernismo

Bem no cruzamento das avenidas Rodrigues Alves e Nações Unidas, ele se destaca no cenário urbano não só por ser o único nas redondezas, mas, em especial, pela beleza de suas linhas modernistas e imponência de seus 12 andares que abrigam 48 apartamentos.

O edifício Brasil Portugal, um dos pioneiros de Bauru, é repleto de história. Construído entre 1958 e 1959 com projeto do arquiteto português Fernando Ferreira de Pinho, o prédio é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac).

"Essa obra foi um grande marco, pois abriu uma área da cidade que quase não era urbanizada na época", comenta a arquiteta Maria Teresa de Pinho Meca, filha de Fernando Pinho.

Nascido na cidade portuguesa de Porto em 1921, o arquiteto chegou em São Paulo em 1952. Em 1958, veio para Bauru e aqui firmou, além da família, um trabalho marcante em construções no estilo modernista que incluem as igrejas Santo Antônio, no Jardim Bela Vista, São Benedito, na Vila Falcão, e Santuário Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Estoril.

"Ele tinha carinho por todas as obras, mas o próprio nome do edifício, Brasil Portugal, remete a um coração que pertencia a duas nações", lembra Maria Teresa.

De acordo com ela, seu pai, que morreu em 2000, aliava a técnica à preocupação urbanística e social para que a arquitetura interferisse no cenário urbano da melhor forma possível e fosse democrática, uma das marcas do modernismo.

"A arquitetura é a manifestação da identidade social, temporal e econômica, da cultura e da história de determinada população, é a soma de costumes no uso do tempo e do espaço", explica.

Neuza Garcia Pires: respeito entre todos
Há 10 anos, quando decidiu mudar de uma casa para um apartamento, a aposentada Neuza Garcia Pires, 75 anos, escolheu o Brasil Portugal mesmo antes de conhecer o prédio por dentro. Contou o fato de ser espaçoso, mesmo tendo um quarto, e ser bem localizado.

“Agora, continuo pelos moradores. É um ambiente muito bom, um ajuda o outro, o que é raro hoje em dia. É como se fosse uma família”. Tudo indica que seu carinho pelos condôminos é correspondido, já que ela está no seu 3º mandato como síndica. “O desafio é o ser humano, não o prédio! Não dá para agradar a todos, mas a gente vai levando em clima de paz”.

Para isso, amizade e reza também contam pontos. “Temos um grupo de oração, aproveitamos para fazer um café, comer bolo e bater papo”.

Perfil da vizinhança
De acordo com a síndica Neuza Garcia Pires, não há crianças morando no Brasil Portugal; o que predomina são os idosos. Depois, famílias, algumas com jovens, pessoas que moram sozinhas, casais e estudantes. “Todos se respeitam e convivem bem com as repúblicas, pois os estudantes não abusam, são silenciosos e, quando advertidos, não voltam a fazer nada errado. Se ocorre alguma coisa, é porque desconhecem o regulamento.”

Para ela, não é à toa que o pessoal mais velho aprecia o local. “Aqui tem tudo que a 3ª idade precisa: igreja, comércio, bancos, farmácia... E bem pertinho.”

As possíveis desvantagens estão do lado de fora. “A vizinhança ao redor prédio não é das melhores, só que nunca chegou a comprometer nosso dia a dia. A preocupação é com os pontos comerciais vazios, que acabam virando local de uso e tráfico de drogas”, justifica.

Bom também para trabalhar
Outra pessoa querida no edifício Brasil Portugal é a zeladora Juliana Bini, que há quatro anos trabalha lá. Os moradores aconselharam a reportagem: “conversa com a Ju!”. E logo ficou claro o motivo.

Além de esbanjar simpatia, a funcionária é uma espécie de faz-tudo no condomínio: cuida da limpeza às correspondências e dedica um carinho especial aos moradores. “Muitos se sentem sozinhos, querem conversar um pouco e ajudo em tudo que é possível. A síndica corre com todo mundo, é amiga e como uma mãe. Às vezes me sinto a filha!”.

Todo mundo que passa faz questão de cumprimentar a Ju. “Os moradores são sensíveis e muito humanos, sempre se preocupam comigo, perguntam se estou bem e se já almocei. Eu me sinto à vontade e amo trabalhar nesse prédio, porque as pessoas aqui têm coração, pedem com gentileza. Conheço todos os moradores, até os parentes deles!”, destaca.

Como há ali muitos idosos, já aconteceu dela precisar socorrer alguém depois de uma queda, por exemplo. “De modo geral, eles se viram muito bem. Alguns gostam de plantar na pracinha e depois me comprometo a aguar”, comenta satisfeita.

“É um lugar muito agradável. A única reclamação que escuto é sobre o valor do condomínio”.

Moradores das antigas e mais novos
Logo que a reportagem chegou ao Brasil Portugal encontrou com uma apaixonada pelo edifício. Tamar Innocenti Flamínio, mora ali com a mãe, Inês, há mais de 20 anos.

“Amo esse prédio, não troco por nada! Parece casa por ser grande. Adoro a localização, principalmente, porque é perto de tudo. O barulho nem incomoda”, declara.

E, por coincidência, já ao final das entrevistas, a equipe conheceu o vendedor de carros Gabriel Augusto Mufalo Atílio, um dos moradores mais recentes.

Gabriel, recém-casado, mora com a esposa Janaína há dois meses no 8º andar, num apartamento de um quarto.

“Aqui é próximo à casa da minha mãe, o lugar ótimo, por ser central, e é um prédio tombado, o que é legal, porque faz parte da história de Bauru”.

Para morador, um oásis em meio ao trânsito
O clima é tão agradável na praça anexa ao edifício Brasil Portugal que, de fato, dá vontade de ficar ali batendo papo sem pressa. Ainda mais se for uma conversa boa como a de José Paulo Junqueira, 65 anos, que mora no 10º andar com a esposa, Heloísa, há nove anos. Os netos passam por lá. E o avô não deixa de se sentar pelo menos um pouco por dia, em um dos bancos que ele mesmo restaurou.

“Fiz amizade com a maioria dos vizinhos e aqui é um ponto de encontro. É uma ilha de frescor e tranquilidade do meio de tanto trânsito, é um oásis...”.

Como muitos moradores, para ele a localização e o tamanho do apartamento, mesmo tendo um quarto, pesou na escolha. “Com o barulho a gente acostuma. Fechando as janelas não se escuta nada. Nem o que acontece na casa do vizinho, porque o tijolo é grande”.

Inclusive, o morador comprovou isso quando resolveu reformar cozinha, a área de serviço e o banheiro. “O pedreiro não conseguiu usar a talhadeira comum. A estrutura é impressionante. Não troco por um prédio novo de jeito nenhum”!, comenta, lembrando do trabalho extra na empreitada.

“Aqui tinha tudo para dar problema, o movimento nas avenidas é 24 horas por dia, mas não tem uma rachadura no prédio”.

Tombado
Seu José Paulo tem orgulho de morar em um local histórico, mas avalia algumas desvantagens. “O prédio é tombado pelo Codepac, mas não recebe a devida atenção. A gente não pode fazer nada na parte externa, mas também não recebe uma verba para manutenção desse patrimônio”, pondera.

“O sistema de portaria digital é ótimo, mas não podemos colocar uma grade protegendo a praça. Nunca tivemos um problema grave aqui, só que há ponto de tráfico nas redondezas”.

Estudantes são bem-vindos no Brasil Portugal
Quem imagina que só vai encontrar entre os moradores do edifício um pessoal com mais experiência de vida terá surpresas. O condomínio possui quatro moradias conjuntas de universitários, as populares repúblicas.

Fernanda Santos de Souza, 19 anos, mora há pouco mais de um ano no Brasil Portugal com mais quatro amigas, todas estudantes de psicologia da Unesp. “Foi difícil achar um apartamento adequado para tantas pessoas e não é todo prédio que aceita estudantes. Tem três quartos grandes e um pequeno, junto à área de serviço”.

Quadros, desenhos, itens de decoração e objetos retrô conferem um clima especial à república batizada de Francis. “Gosto bastante de morar aqui, mas como é no primeiro andar, bem ao lado das avenidas, o barulho incomoda bastante na hora de estudar”.

Devido aos horários irregulares, nem sempre é fácil encontrar com outros moradores, mas os conhecidos estão aprovados. “Os vizinhos são uns amores e temos amigos nas outras repúblicas do prédio. De vez em quando, a gente se visita”, conta Natália Fortuna, 21 anos, que é de Campinas.

Marília Rios, 20 anos, veio de Ribeirão Preto e já está adaptada ao local. “É bem no centro, espaçoso, perto de tudo... Só o condomínio que é muito caro! O valor é maior que o do aluguel”, reclama.

Para a estudante Andressa Donato, 22 anos, de Águas de Santa Bárbara, a reclamação é outra. “A gente gosta daqui, só que é muito barulhento e às vezes alaga na frente do prédio”. Mesmo sendo de São Paulo, capital, onde alagamentos são frequentes, Fernanda se assustou com o “rio” formado na avenida Nações Unidas no começo deste ano. “Cheguei com o carro e a garagem estava cheia de água, quase no joelho. Foi difícil entrar em casa naquele dia”.

Fonte: JC Net
 



NOTÍCIAS RELACIONADAS
15/10/2018
São portuguesas e foram "extraordinárias" no seu tempo. Sabe quem são?
15/10/2018
Uma das Sete Maravilhas do Mundo, Cristo Redentor completa 87 anos
15/10/2018
CAV de Coimbra explora tema do trabalho em nova exposição
15/10/2018
Associação Aldeias Históricas de Portugal promove cimeira internacional de turismo inédita
15/10/2018
'Foi Deus' é a canção portuguesa mais votada para o primeiro Cancioneiro da UE
15/10/2018
Uma 'antologia mínima' para descobrir ou redescobrir Fernando Pessoa