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05/06/2017

Capicua: "O português é o território onde todos nos encontramos"

Capicua e Valete são portugueses, ela do Porto, ele de Lisboa, enquanto Emicida e Rael são brasileiros, ambos de São Paulo. Conheça o novo projeto dos quatro: Língua Franca

Capicua e Valete são portugueses, ela do Porto, ele de Lisboa, enquanto Emicida e Rael são brasileiros, ambos de São Paulo. É no entanto muito mais o que os une do que aquilo que os separa: o rap, a música e a língua portuguesa, que tão bem exploram, com diferentes sotaques, no novo projeto Língua Franca, cujo disco, homónimo, saiu na semana passada. Falámos com a metade portuguesa do quarteto.

Que língua franca é esta? É o português, é o rap?

Capicua - É tudo isso... O português, o rap, a própria linguagem da música, que é universal e acima de tudo esta capacidade de nos aproximarmos através dessas coisas todas. A expressão resume um pouco o espírito deste projeto: um encontro de rappers e produtores dos dois lados do Atlântico, que se juntam para fazer um disco que sai ao mesmo tempo em Portugal e no Brasil, sem ninguém estar com a sensação de estar a importar ou a exportar música. Não há fronteiras aqui e a língua funciona assim como uma zona franca, o português é o território onde todos nos encontramos, nesta mistura de sotaques e modos diferentes de falar o português.

Valete - Um dos pontos fundamentais deste projeto, que é algo que temos vindo a falar muito entre os dois, desde que o disco ficou pronto, tem que ver com as ramificações da língua portuguesa que nos últimos anos têm surgido nas periferias das grandes cidades, em particular no Brasil. É cada vez mais difícil, para quem não pertence a essas comunidades, entender o que está a ser falado, especialmente pelos rappers. Este projeto é importante porque também faz essa aproximação a essas novas linguagens. A Capicua é uma rapper do Porto, eu sou dos subúrbios de Lisboa e o Rael e o Emicida são dos subúrbios de São Paulo, que é uma zona onde o português está a ser todos os dias reinventado. O próprio Rael dizia que há já zonas de São Paulo onde ele não entende o que as pessoas estão a falar.

E cá em Portugal isso também está a acontecer?

Valete - Sim, embora menos do que no Brasil. Por exemplo, eu já começo a ter grandes dificuldades em entender alguns rappers brasileiros [risos]. O que é estranho, porque eu cresci a ouvir rap brasileiro...

Capicua - Sim, mas o rap brasileiro de antigamente era muito mais pausado e não recorria tanto ao calão, como acontece agora. Tem também que ver com as referências de cada um, que hoje são muito mais individuais mas chegam a muito mais gente, devido à internet. Há um sem-fim de micro universos que são referenciados nas músicas e nos escapam. Tanto pode ser um amigo do bairro, um qualquer vídeo visto no YouTube ou uma cena da novela da Globo.

Valete - Sem dúvida, mas, mesmo ouvindo uma música em que não existam essas referências mais pessoais ou codificadas, também já tenho muita dificuldade em perceber.

E como é que vocês casaram os vossos quatro micro universos neste disco?

Valete - Essa é que é a grande beleza deste projeto, que surge exatamente para dar a conhecer essas novas maneiras de abordar o português, que também existem em Portugal.

Como surgiu a ideia de se juntarem? E porquê vocês os quatro?

Capicua - Foi um convite da editora Sony, que resolveu fazer uma parceria entre artistas de Portugal e do Brasil para gravarem um disco em conjunto. O convite foi feito a estes quatro MC talvez por acharem que já existiam algumas pontes entre nós, porque já todos tínhamos trabalhado uns com os outros. Temos uma forma de fazer música muito parecida, fazemos todos um rap de certa forma mais consciente, não temos problemas em misturar o rap com outros estilos musicais... E temos acima de tudo um sentido de identificação entre os quatro que permitiu que todo o trabalho de composição e de estúdio funcionasse muito bem. O convite foi também feito a três produtores, todos eles diferentes entre si e que se encontraram no Brasil, numa espécie de laboratório sonoro onde fizeram os beats sobre os quais criámos as rimas.

Quem foram esses produtores?

Capicua - O Kassin, que vem da MPB, o Nave, mais conhecido pelos seus beats de hip-hop, e o português Fred Ferreira, também ele ligado ao hip-hop, mas com um trabalho reconhecido nas mais variadas áreas da música.

E essa parte da composição das rimas, também foi feita em conjunto entre vocês os quatro?

Valete - Sim, juntámo-nos todos cá em Portugal, no estúdio do Fred, onde foi feita toda a parte de escrita e gravação do disco. Foi um processo até bastante rápido, de apenas dez dias.

Capicua - Não queríamos fazer um disco por correspondência, em que cada um está no seu canto a trabalhar à distância. O objetivo era fazer um disco resultante do debate e da partilha de ideias e julgo que isso se nota bastante bem no produto final. Foi assim quase como um Big Brother do rap, em que estivemos todos ali fechados durante dez dias [risos].

E há algum registo vídeo disso?

Valete - Sim e até está previsto sair um documentário sobre todo este processo de criação. O próprio vídeo do single Ela mostra algumas imagens desses dias de estúdio e do espírito de trabalho e companheirismo que conseguimos criar.

Agora, já com o disco cá fora e olhando para trás, o que é que gostaram mais desta experiência?

Valete - O tempo que passámos em estúdio e a oportunidade de ter conhecido melhor o Rael e o Emicida, que são dois artistas muito talentosos, cuja carreira já extravasou por completo as fronteiras do hip--hop. Vêm os dois de uma escola muito clássica, mas estão a conseguir fazer uma trajetória para um hip-hop muito mais abrangente, em termos musicais, que é algo que ainda acontece pouco cá em Portugal.

Capicua - Eu gostei muito do processo de escrita em conjunto. Tanto o Rael como o Emicida, que chegou a ser campeão de rap de improviso durante bastante tempo, são ambos muito rápidos e intuitivos a criar rimas. Eu sou muito mais ponderada, porque sempre tive uma relação mais séria com a escrita. E vê-los assim a flirtar, de uma forma tão livre e espontânea, com as palavras obrigou-me a ser mais rápida e a ter menos filtros.

E eles, o que levaram desta colaboração?

Valete - Eles estavam muito confortáveis no estúdio, porque este tipo de colaborações é uma forma de trabalhar à qual estão muito habituados. O Rael foi a primeira vez que cá esteve e aproveitou para conhecer Lisboa e comer bem.

Capicua - O Emicida fartou-se de comer arroz-doce [risos]. Já o Rael achou muita piada ao nosso português, porque não está acostumado a ouvi-lo. Vinha com aquela ideia que muitos brasileiros têm, que aqui se fala de uma maneira muito formal e dizemos expressões como "ora pois" em todas as frases. Achou muita piada ao perceber que o nosso português também tem calão e novas palavras. Acima de tudo, penso que, tal como nós, também eles acharam muito importante fazer um disco de rap em português de cá e de lá, para ser editado nos dois países.

Perfis
Capicua
Editado em 2014, o disco Sereia Louca extravasa por completo as fronteiras do hip--hop, levando a música de Capicua a todo um novo público.

Em parceria com Pedro Geraldes, guitarrista dos Linda Martini, lançou no ano passado o livro/disco Mão Verde.

Entre o liceu e a universidade (é formada em Sociologia), a portuense Ana Matos Fernandes torna-se uma militante MC, estreando-se a solo em 2008, com a aclamada mixtape Capicua Goes Preemo.

Valete
Em 2006, lançou o álbum Serviço Público, que o confirma como um dos mais talentosos rappers nacionais.

No final da semana passada, lançou os videoclips Rap Consciente e Poder, que marcam o seu regresso a solo, 11 anos após o último trabalho de originais.

Já lá vão duas décadas, desde que Keidje Torres Lima, 35 anos, assumiu o alter ego musical Valete. De origem são-tomense e residente na Damaia, começou nas lides musicais ao lado de Adamastor e Bónus, no coletivo Canal 115.

Fonte: DN



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