home > notícias

MUNDO

28/07/2017

Dança com letras nas modas de cá e lá

Em Portugal escreve-se facto e no Brasil fato, mas na família de tais palavras reina uma total desunião.

Há duas semanas, e por culpa de Cleópatra, não se aprofundaram aqui as potencialidades do chamado Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, já online, com o qual se pretende uniformizar a ortografia dos países de língua portuguesa a partir do famigerado Acordo Ortográfico de 1990 (AO).

Façamos, pois, um pequeno exercício. Peguemos num Dicionário da Língua Portuguesada Porto Editora, anterior ao acordo (por exemplo, a 8.ª edição de 1998), e procuremos algumas famílias de palavras onde as mudanças propostas pelo AO tiveram algum efeito. Feitas as listas, comparemo-las com o que nos propõe como norma o dito vocabulário comum (VOC). Ou melhor, o que propõem os vocabulários de Portugal e Brasil, a ele adstritos, porque o VOC é a soma de todos os nacionais.

Comecemos pela família de palavras iniciadas por “concep”. No Brasil, escrevem-se ainda tal qual se escreviam em Portugal: concepção, concepcional, concepcionário,conceptáculoconceptibilidade, conceptismoconceptista, conceptiva, conceptívelconceptivoconceptualconceptualismo, conceptualistaconceptualizaçãoconceptualizar. Já em Portugal temos conceção, concecional, concecionário, concetivo, todas sem “p”; nas restantes admite-se escrevê-las com “p” ou sem ele; e numa única palavra, conceptibilidade, só é admissível a versão com “p”. Porquê? Não se adivinha.

Passemos agora a uma família onde a divisão devia ser clara, a de “fact”. Pois em Portugal escreve-se facto e no Brasil fato, com o mesmíssimo significado de “acção realizada, acontecimento”. Nos dois países, apesar disso, há um grupo de palavras que tem o “c” obrigatório: facticidadefactitivofactoring (esta integrada na lista, mas inglesa), factótum ou factoto. Em Portugal, só com “c”, temos factíciofactívelfactual, palavras que no vocabulário brasileiro online surgem com dupla variante (fatíciofatívelfatual) embora o Priberam brasileiro só as admita com “c”! Já fáctico pode escrever-se com ou sem “c” nos dois países. Obrigatoriamente sem “c”, em Portugal e no Brasil, surgem: fator,fatorialfatorizarfaturafaturar. Como se vê, uma família muito unida. Alguém entende isto?

Vejamos a família “recep”. Aqui é mesmo tudo limpinho. No Brasil é (sem admissão de variantes) recepçãorecepcionistareceptaçãoreceptacularreceptáculoreceptadorreceptarreceptibilidadereceptivareceptívelreceptividadereceptivoreceptor. Em Portugal, pelo contrário, tudo isto perdeu o pio, perdão o “p” com o AO. O que originou o surgimento de um estranho verbo: Recetar. Presente (está no VOC): eu receto, tu recetas, ele/ela receta, nós recetamos, vós recetais, eles/elas recetam

Ainda na letra R, uma curiosidade em “rupt”. No Brasil escreve-se tudo com “p”: rupturarúptilruptilidaderuptório. Em Portugal idem, menos ruptura, que perdeu o “p” e passou a… rutura.

Vamos agora à família das partições, “secç” e “sect”. No vocabulário brasileiro admite-se dupla grafia (com ou sem “c”) para todas estas palavras: secçãoseccionalseccionamentoseccionarsectorsectorialsectorizaçãosectorizar. Em Portugal, dupla grafia só em sector/setor e sectorial/setorial. De resto escreve-se secçãosectorizaçãosectorizar (sem dupla grafia). Mas – há sempre um mas nesta enviesada história – temos meia dúzia de palavras desta família só admissíveis com “c”, em Portugal ou no Brasil: sectáriosectarismosectaristaséctilsectório e sectura. Tudo tão claro e tão óbvio…

Para acabar, porque já devem estar cansados desta dança com letras, vamos à família “tact”. No Brasil e em Portugal admitem-se duas variantes (com ou sem “c”) nas palavras tacticografiatacticográficotáctil e tactismo. O Brasil também admite dupla grafia em tactotácticotácticatacticalidade ou tactura, mas aqui Portugal distancia-se: numas só escreve sem “c”, tatotáticotática; noutras só escreve com “c”, tacticalidadetactura. Porquê? É para uniformizar a ortografia, não se vê logo?

Exercícios idênticos podem multiplicar-se à exaustão. Divirtam-se (ou chorem) a fazê-los. Uma coisa é clara, e está à vista de todos: não há uniformidade gráfica alguma em tais vocabulários, a ortografia “nova” é uma inominável quimera e os que há muito gritam “basta” não podem nem devem calar-se. O silêncio sobre este caso é criminoso. Não é Pedrógão Grande, claro, nem há comparação possível; mas não podemos adiar uma decisão que se impõe sobre tão magno tema. Será depois do Verão? 

Fonte: Publico.PT



NOTÍCIAS RELACIONADAS
17/07/2018
Pelos labirintos de Fernando Pessoa
17/07/2018
Prêmio da Música Brasileira divulga lista dos indicados deste ano
17/07/2018
Isabel Minhós Martins é finalista de prémio literário norte-americano
17/07/2018
Summer Campus da Universidade do Algarve: uma experiência para a vida de dezenas de brasileiros
17/07/2018
Companhia de Dança quer Viseu como foco privilegiado de formação
17/07/2018
Algés volta a ser palco do NOS Alive nos próximos cinco anos