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MUNDO

18/08/2017

Descobrir o Brasil em Portugal (ou de como a primeira vez nunca se esquece)

Esta é uma daquelas histórias de um amigo de um amigo que contou a outro amigo sobre um amigo distante. Não está registada nos anais ComUM da História, nem há registo fotográfico do momento. Entretanto, posso afirmar com toda a exatidão: foi a entrevista mais reveladora deste jornalista de pasquim que vos escreve. O momento a que todo aspirante a jornalista almeja quando pensa em se tornar jornalista. Aquele momento em que anuncias para a tua mãe que vais entrevistar o icónico e incontornável senhor Portugal. O representante máximo da cultura bacoca (não barroca, se bem que na sua poesia se vislumbre um bocado de barroco).

Aconteceu mais ou menos assim: corria o ano da Graça de 2010 e uns trocados (as datas não são relevantes para este relato). Tinha acabado de fazer o caminho inverso de Pedro Álvares Cabral naquela que seria conhecida como a viagem do descobrimento pessoal do Norte de Portugal (afinal, para o meu espanto, havia civilização acima do paralelo 41 N a despeito de toda a publicidade que me afirmava que o Reino de Portugal terminava no PortoPonto). Para este bandeirante que vos escreve, a entrada em Braga foi como que uma epifania: pareceu um reencontro com um velho novo conhecido. Animado pela perspectiva de interagir com essa cultura, logo pensei “Esta gente é boa e de boa simplicidade”, o que na verdade nada mais era do que uma reminiscência da carta de Pêro Vaz de Caminha aquando do descobrimento do Brasil lida por mim no decurso da viagem.

Passados alguns meses de exploração, mantinha ainda em mim o mesmo ímpeto inicial que me propeliu a esta jornada por terras lusitanas e foi com este mesmo entusiasmo que me juntei às fileiras dos colaboradores do ComUM e abracei esta nova fé. Eis que chegara o dia da minha primeira reunião de pauta. Este cronista embebido das belezas locais ainda não tinha ajustado o seu relógio ao ciclo natural do sol por estas terras e acordou 15 minutos atrasado. Meia hora se contarmos o tempo que ainda levei para chegar ao recinto onde decorreu a reunião. Decorreu, porque quando lá cheguei “ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas” que me disseram que tinha perdido a reunião de pauta. Mas que não me preocupasse. Elas estiveram presentes. Que tudo transcorreu tranquilamente. E que as tarefas foram divididas. Que iríamos fazer a cobertura deste evento singular chamado Enterro da Gata. Perguntei se deveria vestir preto em sinal de luto. Riram-se. Percebi que ainda haviam expressões que este forasteiro precisaria aprender antes de se sentir em casa. Disseram que não me preocupasse. O meu quinhão de trabalho faria justamente isso: trar-me-ia em contacto com o mais local que esta terra tinha a oferecer. Que depois de tudo transcorrido e discutido fiquei encarregado de entrevistar um tal de Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros de seu nome, conhecido pela arraia-miúda como Quim Barreiros. Mas que não me preocupasse. Que era uma pessoa aberta. Que não faltaria informação sobre ele na Internet. Eu só pensei: hora de mostrar que estou à altura do desafio.

Os dias seguintes decorreram com muitas pesquisas. Precisava primeiro saber a quem pertencia o finado gato e quem era o insigne que iria entrevistar. O Google ajudou-me a vislumbrar pela primeira vez o homem por detrás do nome e para descrever a primeira foto recorro mais uma vez ao escriba Pêro Vaz de Caminha: “A feição dele é ser pardo, maneira de esbranquiçado, de bom rosto e bom nariz, bem-feito. Anda nu, sem nenhuma cobertura. Nem estima de cobrir ou de mostrar as suas vergonhas; e nisso tem tanta inocência como em mostrar o rosto. Nas mãos trazia um acordeão.” Ao lado da foto vinha escrito “Recebi um convite (à casa da Joaquina)”. Publicado pela Fênix editora é conhecido como um álbum seminal pelo menos no que toca a imagética perpetuada ao longo do tempo. A impressão nas retinas é bastante duradoura. Passei à música. O Youtube apresentou-me algumas e é aqui que o exposé começou. Ora, ora, pensei na altura, mas onde foi que já ouvi essas músicas. O homem deve ser um sucesso internacional. Eu vou entrevistar uma CELEBRIDADE!!!! Corri em desatino pela casa. Liguei aos pais, aos amigos e conhecidos. Não me contive com a ideia de que entrevistaria um homem com músicas conhecidas por todo lado. As suas músicas eram tão prosaicas, do homem comum, que tive a impressão de já ter escutado umas quantas em algum momento da vida, mesmo sabendo que nunca ouvira falar desse homem. Esse homem que deve ser o senhor por trás do folclore e das lendas. O pai das lendas, ou seja, a própria lenda. E foi com estas tribulações no espírito que ensaiei as perguntas e decorei as letras de algumas das canções.

Volvidos os dias até a entrevista, preparei-me com esmero. Pus-me janota. Pensava como fora possível a direção do ComUM deixar essa entrevista nas minhas mãos. Mas não desdisse da minha sorte. Ensaiei mentalmente a entrevista a caminho do autocarro que nos levaria ao Gatódromo. Levantava as minhas credenciais de acesso ao recinto quando fui interpelado por uma das três raparigas que antes me passara a informação sobre a reunião. Perguntou-me como tinha corrido a entrevista. Era nítido que este forasteiro não estava familiarizado com os movimentos de rotação da Terra nestes meridianos. Como assim correu a entrevista? Poupo-vos da convulsão de sentimentos que se passou no meu interior e que deve ter dado a impressão a quem me observava de que passava mal. Mais uma citação da carta ocorreu-me: “Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho”. Era assim que me parecia o ar, frio e temperado, mas eu ao contrário do escriba já cá estava no Minho e tinha acabado de falhar a minha entrevista.

Foi então que vi ao longe, a fumar o seu cigarro, sem chapéu, aquele homem o qual já conhecia as vergonhas todas e que não me seria estranho mesmo entre todo aquele mar de gentes. Aproximei-me como quem se aproxima de um animal silvestre. Desejei-lhe as boas noites do costume. Acenou-me sem sorrisos, apenas o brilho do cigarro a iluminar os bigodes. Involuntariamente, levei as mãos aos lábios para constatar que não possuía um. Senti-me também nu, sem um bigode apropriado. A conversa a seguir é reproduzida de memória, que é como quem diz, perdoem a falta de fidedignidade.

– Veio para o concerto, rapaz?

– Vim… (longa pausa), mas também vim para o entrevistar. Disseram-me que a entrevista seria depois do concerto, mas pelo visto aconteceu antes.

– Pois, o Zezé Fernandes estava a dar a sua e aproveitei para despachar logo com isso. Depois de uns copos não sabemos mais o que falamos.

– Aham…

(eu acenava com a cabeça como aquelas desconsoladas tartarugas que se costuma por nos tabliers dos carros e que acenam para tudo e todos com a mesma euforia. Reuni em mim o ânimo para ainda o indagar:)

– Posso fazer apenas uma pergunta ao senhor?

– És brasileiro?

– Sou.

– Logo vi. Vá lá, o que queres saber?

– Porque é que eu fiquei com a impressão de que já conhecia grande parte das suas músicas? De onde tira a inspiração para escrever canções tão prosaicas que faz um indivíduo achar que já as ouviu antes quando nunca tinha ouvido falar de si?

Quim Barreiros sorriu e respondeu-me já a apagar o cigarro.

– Isto é porque provavelmente já as escutou antes. Muitas dessas canções são versões que faço dos Quim Barreiros do Brasil que sabem da minha existência e mas enviam. A Garagem da Vizinha, A Cabritinha, O Bilau, entre outras são músicas brasileiras que popularizei por cá.

O final da frase foi-me dito já a se afastar. Ia subir ao palco. Ainda tive tempo para perguntar se podia escrever uma notícia sobre isso que me tinha acabado de dizer.

– Claro que sim. Bom Enterro!

Quim pôs o chapéu, subiu ao palco, enquanto eu fiquei parado a pensar em como tinha acabado de descobrir um pedaço do Brasil no rincão mais improvável.

Como não houve gravação, nem fotografia, assim que cheguei a casa transcrevi tudo o que me pude recordar. Escrevi uma pequena peça a relatar como o concerto tinha transcorrido bem e a  desvelar a pequena confidência da origem de grande parte das músicas do Quim. Na falta de provas documentais, o ComUM preferiu não publicar a notícia (atitude compreensível dos editores que puseram em prática toda a formação que estavam a receber, além do facto de que não conheciam este cronista de lado algum). A peça ainda chegou a ser aproveitada para um trabalho de atelier de Jornalismo, e mesmo apesar de não ter tido o fim que ensaiei frente ao espelho, como reza o dito popular que deixaria Quim orgulhoso deste cronista, no ComUM, a primeira vez nunca se esquece.

E nesta maneira, Senhor Leitor, dou aqui à Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.

Fonte: Comum Online



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