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MUNDO

18/09/2017

"Não é milagre, é o vosso trabalho". Bailarinos de todo o mundo competem em Lisboa

Uma das mais importantes competições de dança, a Genée International Ballet Competition acontece pela primeira vez em Lisboa. Onze bailarinos dançam hoje na final de onde sairão rapazes e raparigas (sem distinção) medalhados com ouro, prata e bronze

Uma mulher de sotaque britânico e traços orientais soletra ao telefone: "T-i-v-o-l-i." Veste uma T-shirt branca que mostra um desenho com duas bailarinas em posições clássicas junto a um elétrico amarelo. Lê-se "Genée International Ballet Competition 2017 Lisbon".

Era quinta-feira. Estávamos à porta do Teatro Tivoli, na Avenida da Liberdade, e o corrupio de pessoas que entravam e saíam ao telefone, dando novidades e prometendo voltar a ligar, denunciava em parte o que se passava lá dentro. 52 jovens de todo o mundo, entre os 15 e os 19 anos, esperavam para saber se a sua performance nas semifinais lhes valera, ou não, um lugar na final, que acontece hoje às 20.00 no Teatro Camões. Chegaram no passado domingo a Lisboa vindos de China, Austrália, Canadá, Estados Unidos ou Singapura.

O nome Genée pode não ser tão familiar ao ouvido como o da Royal Academy of Dance (RAD), a instituição britânica de dança que está presente em 85 países, com cerca de 14 mil membros, e que tem como patrona a rainha Isabel II. Genée, uma das mais importantes competições de dança do mundo, que neste ano pela primeira vez tem lugar em Lisboa, abre-se apenas aos alunos que seguem o método da RAD e passaram no exame Advanced II com distinção.

João Gomes, o único português na competição, acabara de dançar a sua variação como Príncipe Siegfried, de O Lago dos Cisnes, e uma outra, livre, da autoria de um professor seu. O bailarino de Leiria, um dos seis rapazes que integram a competição, saberia pouco depois que não constava nos 11 finalistas. Nem ele nem Emilia Pascual, a sua colega brasileira no Conservatório Internacional de Ballet da professora cubana Annarella Sánchez. Não vão, por isso, dançar nesta noite no Teatro Camões e não chegam a levar a palco a coreografia que o português César Augusto Moniz concebeu para a 86.ª edição deste concurso que em 2002 saiu de Londres e passou a ocupar um lugar diferente do mundo em cada edição.

No ano passado esteve em Sydney. Agora chegou ao país que, antes de João, só teve uma portuguesa a participar: Brígida Pereira Neves, em 2003. Aliás, a diretora da RAD Portugal, Margarida Fialho, conta ao DN que este método só chegou ao país na década de 1980. "Veio através de umas professoras que trabalhavam em África, Angola, e quando voltaram para Portugal trouxeram a RAD." Agora há 200 professores associados e 20 que se formam neste ano.

Nos ensaios da Genée

Quando encontrámos os candidatos da Genée pela primeira vez, estes ainda estavam longe do Teatro Tivoli e mais ainda do Teatro Camões. Ensaiavam nos estúdios Victor Córdon, da Companhia Nacional de Bailado, as variações que depois haveriam de levar ao palco. Quando chegámos, alguns descansavam no chão, uma rapariga fazia uma chamada sem resposta, sentada nas escadas, e muitos espreitavam os ensaios que decorriam no estúdio.

Atrasados, mas sem suscitar um único olhar desatento, entramos no estúdio onde ensaiavam João, o australiano Dane, os britânicos Harris, Ryan, e os australianos Matthew e Isaac (estes últimos quatro passariam à final). César ensaiava-os na coreografia da sua autoria, um a um. Sabe o nome de todos, mesmo que o chamado tempo de coaching, em que os candidatos têm ensaios e aulas com professores convidados, dure apenas cinco dias. Diz-lhes para irem "fundo em cada movimento". "Até que venha de forma automática, porque o fizeram tanta vez que o vosso corpo e a vossa cabeça o conhece. Não é um milagre, é o vosso trabalho." Eles aplaudem de cada vez que um acaba a coreografia que César diz ao DN ser "técnica e artisticamente muito difícil".

Mudamos de estúdio. Paula Hunt, diretora artística da RAD, e a professora Hilary Clark ensaiam os rapazes nas suas variações clássicas, de O Lago dos Cisnes a Coppelia ou A Bela Adormecida, "Atitude nos olhos!", lança Clark a um deles, que acabara de dançar. Corrigem os agradecimentos de João: pedem que abra mais a mão, que o agradecimento seja "mais generoso".

De seguida, um grupo de raparigas ensaiam variações do bailado La Bayadère. A assistir está Luke Rittner, diretor executivo da RAD, sorridente, de jeans e camisola preta. Entretanto, há raparigas de tutus e pedaços esvoaçantes de tule branco presos à cabeça em todo o estúdio. Hilary Clark diz à canadiana Camille que deve encurtar o seu, para que não atrapalhe a dança. Di-lo-ia depois também à chinesa Hiu Tai, pedindo à primeira que ajude a colega. Paula Hunt diz a Madison, canadiana, que é preciso mexer no seu figurino. "Tens alguém contigo?", pergunta. "A minha mãe e a minha professora."

Quem acaba de dançar sai e, na maioria das vezes, fica a espreitar quem dança. Ao piano está Richard Norriss, que se vai adaptando aos pedidos dos professores para repetir esta ou aquela passagem. Para lá da sua cabeça, as janelas mostram o rio Tejo.

Clark avisa: "Meninas, sabem que temos fotógrafos. Vocês não querem ser apanhadas. Sabem o que quero dizer..." Quase no final do ensaio, Hunt dir-lhe-ia que compreendia o seu cansaço, "mas também podem estar cansadas na terça-feira [primeiro dia de semifinais], têm de resistir."

No final, depois de todas as raparigas dispersarem, perguntamos à diretora artística da RAD que importância tem uma competição como esta para um jovem bailarino. "É muito importante. Eles estão aqui para estes cinco dias de formação. É muito amigável, e estão a aprender. Se os tivesse visto no início, veria quanto cresceram. Há diferentes níveis, mas todos cresceram." Depois, há ainda a importância para a carreira. "Sim, se as pessoas certas estiverem na plateia, e provavelmente estarão, surgirão oportunidades desta competição. Não é garantido, mas pessoas das grandes companhias tendem a estar na plateia. E mesmo os jurados são normalmente de companhias."

Camille e Chloe, uma canadiana e uma australiana (a viver em Inglaterra), de 16 e 17 anos, respetivamente, concordam com Hunt. "É uma oportunidade para pores o teu nome em companhias. Sobretudo se chegares às finais, eles prestam muita atenção a quem és e o teu nome está out there. Faz uma grande diferença", diz a primeira. Além disso, Chloe fala da oportunidade de "descobrir que tipo de bailarina és", e de fazê-lo entre gente de todo o mundo. Perguntamos se a nacionalidade e consequente cultura influencia de alguma forma o modo de dançar. Camille responde que não, porque, diz, "o ballet é universal, portanto o sítio de onde és não muda a tua técnica ou a forma como danças. É algo que todos temos em comum".

Neste ano, o papel de jurados cabe a Monica Mason, ex-diretora do Royal Ballet, Christopher Hampson, diretor artístico do Scottish Ballet, e Lynn Wallis, ex-diretora artística da RAD. Durante as semifinais, no Tivoli, era fácil distingui-los, na última fila, com a secretária iluminada, concentrados a tomar notas rapidamente, logo depois de cada atuação. E foi a partir daquelas notas que, durante uma hora, refletiram e deliberaram. Às 17.30, os 11 finalistas eram anunciados: Lucy Christodoulou, Kayla van den Bogert e My Le, australianas, Ellis Derrick e Janice Felices, britânicas, a japonesa Lin Fujimoto, a neozelandesa Jemima Scott, e os quatro rapazes já mencionados.

Um só pódio para eles e para elas

Antes de entrarmos para assistir à atuação do último grupo das semifinais, Margarida Fialho explica que na Genée Ballet International Competiton não existe "primeiro lugar, segundo, terceiro... Eles estão a dançar para a medalha de ouro, prata e bronze. Pode dar-se três medalhas de ouro, pode não dar-se nenhuma." Nas medalhas não há distinção entre rapazes e raparigas: há um mesmo "nesta noite conheceremos. Além das medalhas, existe ainda o prémio para a melhor coreografia apresentada na variação livre, que na quinta-feira foi atribuída a Harris Beattie, britânico e um dos finalistas. Além deste, existe ainda o prémio Margot Fonteyn, decidido pelo público que formará a plateia de hoje no Teatro Camões, e a quem é dada a oportunidade de eleger um bailarino.

Nesta noite os bailarinos atuarão em três momentos: com a variação clássica, a livre (coreografada por um professor, por si mesmos, etc.), e a coreografia de César Augusto Moniz. "A das raparigas é neoclássica, dentro da linha do William Forsythe, e a dos rapazes é contemporânea e neoclássica, mais dentro da linha do Nacho Duato. Usei esses dois grandes mestres que eu tive para me inspirar", conta ao DN o ex--bailarino do Ballet Gulbenkian que conta uma extensa experiência internacional e é hoje muito conhecido pelo seu papel de jurado em programas televisivos como Let"s Dance. "Sobretudo o solo das raparigas, em pontas, é muito difícil, mesmo", diz. Depois de ver a coreografia apresentada na Genée do ano passado, em Sydney, "mais de escola", decidiu: "Não. Vou fazer uma coreografia profissional e vou puxar por eles a sério."

Entre os medalhados pela Genée contam-se bailarinos que hoje dançam em companhias como Royal Ballet, American Ballet Theatre ou o Mariinsky Ballet.

Fonte: DN.PT



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