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NEGÓCIOS E ECONOMIA

19/09/2017

Os novos portugueses no poder local

Vêm de Cabo Verde, da Bélgica, do Bangladesh, do Dubai, da Polónia e do Brasil. Por todo o país, há candidatos às eleições autárquicas que são oriundos de outras nações e que pretendem “emprestar” multiculturalidade às autarquias portuguesas.

Mário de Carvalho veio de Cabo Verde para a Amadora em 1991, para estudar Ciência Política e Direito. Desde cedo envolveu-se no movimento associativo, tanto no meio académico como entre a comunidade do seu país de origem, fazendo parte da direcção da Associação Cabo-verdiana de Lisboa. A chegada à política foi, por isso, um caminho natural.

Enquanto candidato com dupla nacionalidade, o cabeça de lista à Câmara Municipal da Amadora pelo partido "Nós, Cidadãos!" aposta na mais-valia da diversidade e multiculturalidade das 55 nacionalidades representadas no município. O seu objectivo é “fazer da Amadora um pólo multicultural da lusofonia”, com o desenvolvimento de indústrias criativas na área da cultura e a concretização do projecto da Casa de África.

Uma belga no Alentejo e uma libanesa em Oeiras
A residir no concelho de Évora há 27 anos, a belga Florence Melen é cabeça-de-lista da CDU à Junta de Freguesia de São Miguel de Machede. “É a segunda vez que sou cabeça-de-lista, além de ter integrado a lista da CDU em diversas eleições anteriores, sempre à Junta, e é um pouco inerente ao meu trabalho”, explica a coordenadora-geral da Associação de Desenvolvimento Rural "Trilho", de São Miguel de Machede.

No distrito de Lisboa, Safaa Dib é a cabeça-de-lista à Câmara de Oeiras pelo partido Livre. Nasceu no Dubai (Emirados Árabes Unidos), onde foi registada na embaixada do Líbano, país de origem dos pais, que, em 1985, a trouxeram para Lisboa.

Chegou à capital portuguesa com dois anos. Hoje, tem 34, é formada em Línguas e Literaturas Modernas. Trabalha como directora editorial de um grupo livreiro, em Oeiras. A sua militância em grupos de esquerda levou-a a aderir ao Livre, em 2014. Já integrou as listas do partido ano às eleições europeias e às legislativas de 2015. Agora, chegou a vez de tentar a sua sorte no poder local, numa candidatura que tem como máxima “pensar global e agir local”.

A cidadã com dupla nacionalidade admite que as pessoas demonstram “muita curiosidade” pela origem do seu nome, salientando que teve “educação árabe em casa e uma educação portuguesa fora de casa”, com as amizades feitas na escola.

Apesar de haver características portuguesas com as quais não se identifica, Safaa Dib considera que as culturas libanesa e portuguesa possuem afinidades, como a família em torno da mesa, a hospitalidade e a paixão pelo azeite e vinho. Diz que as diferenças lhe permitem observar as situações de uma forma “mais distante” e “menos emocional” e garante que nunca sentiu “xenofobia, agressividade ou rejeição”, embora reconheça que isso pode variar do meio social de cada um.

A Polónia em Leiria, o Bangladesh no Porto, o Brasil em Santa Maria da Feira
Andrzej Kowalski já é mais português do que polaco. Aos 65 anos, soma 40 vividos em Portugal e não é a primeira vez que entra na política activa. Andrzej é o candidato do Bloco de Esquerda à Câmara de Leiria. Antes, apresentou-se como independente pelas listas do BE a uma junta de freguesia, também do concelho de Leiria, e foi mandatário em eleições anteriores.

“Quero ter uma participação activa, quer na vida profissional como na vida cívica. Houve um grupo de pessoas independentes que começou a trabalhar naquilo que pode ser um projecto para modificar a nossa vida”, conta este polaco de dupla nacionalidade.

No Porto, quem percorre a lista de candidatos do PS à Câmara Municipal, depara-se, no lugar número 11, com um nome no mínimo difícil de pronunciar: Md Shah Alam. É natural do Bangladesh e aceitou o desafio socialista porque sente a “uma forte ligação com a sociedade portuense” e está empenhado na resolução dos problemas com que se cruza diariamente na cidade, como cidadão e comerciante.

A residir no Porto há mais de duas décadas, Md Shah Alam é dirigente da Associação dos Comerciantes de Bangladesh e representante da Comunidade de Estrangeiros no Porto, o que, na sua perspectiva, “reforça as obrigações morais e sociais” que presta, “não apenas como empresário, como também como cidadão”.

Do Brasil para a União de Freguesias de Santa Maria da Feira, Travanca, Sanfins e Espargo, onde Alecsander Pereira é o cabeça-de-lista do CDS-PP para “mudar a forma como se fazem as coisas”. Na bagagem, Alecsander traz a sua experiência de actividade cívica e a convicção profunda de que, tal como acontece no Brasil, também em Portugal o voto devia ser obrigatório.

“No Brasil, é-se obrigado a votar e quem não for às urnas tem que pagar uma multa ou fica impedido de ter passaporte, número de contribuinte”, refere o candidato, acrescentando: “Ora, se em Portugal também fosse obrigatório votar, mesmo que as pessoas só lá fossem para votar em branco, era muito mais fácil medir estatisticamente o grau de insatisfação da população e tentar alterar as coisas.”

Em Portugal, todos os cidadãos oriundos dos estados membros da União Europeia e de outros onze países podem candidatar-se aos órgãos do poder local desde que tenham dupla nacionalidade. De acordo com o Observatório das Migrações, entre 2007 e 2016, 40 mil pessoas por ano tornaram-se cidadãos portugueses.

Portugal tem 9.396.680 eleitores inscritos que podem votar nas próximas autárquicas. Segundo os dados da base central do recenseamento eleitoral estão inscritos 9.369.574 cidadãos nacionais, 13.462 cidadãos da União Europeia, não nacionais, e 13.644 outros cidadãos estrangeiros residentes em Portugal.

Fonte: Sapo.PT



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