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MUNDO

25/09/2017

"As raças mais trabalhadoras no Brasil são os japoneses e os portugueses"

Grupo de nipo-brasileiros foi recebido na residência do embaixador do Japão em Lisboa

Um grupo de nipo-brasileiros está em Portugal para descobrir o país mãe da sua pátria. Foram recebidos pelo embaixador japonês em Lisboa e com direito a um brinde pelo brasileiro.

"Em casa só se usava o japonês. Era no interior de São Paulo. Aí quando fui para a escola o único estrangeiro era o professor brasileiro. Tudo o mais falava japonês. Demorámos uns quatro meses a começar a falar português com o professor", conta, entre risos, Toshio Ichikawa, vice-presidente da Federação das Associações das Províncias do Japão no Brasil, conhecida como KENREN.

Ichikawa, um nissei ou imigrante de segunda geração, integra o grupo de nipo-brasileiros que está de visita a Portugal e que foi recebido na residência do embaixador japonês em Lisboa. "Fazem viagens para perceber a história da comunidade japonesa no Brasil. E desta vez vieram a Portugal para descobrir o país que é a mãe do Brasil", explica Hiroaki Sano, ministro-conselheiro, que antes de vir para Lisboa foi cônsul em São Paulo e esteve um pouco na origem desta visita da KENREN.

A chegada dos autocarros com o grupo, dividido em dois, acontece ao final da tarde. Na residência no Restelo está tudo a postos para a receção em sua honra. No jardim, com vista para o Tejo e de onde se percebe os Jerónimos, estão organizadas cadeiras para a foto de grupo. "Estou muito feliz por receber estes descendentes de japoneses. Quando o primeiro-ministro Shinzo Abe visitou Portugal falou do fortalecimento das relações com a CPLP e hoje o Japão é país observador. Damos por isso muita atenção também à relação com o Brasil, onde há uma grande comunidade de origem japonesa. Queremos que todos beneficiem das relações Portugal-Japão, Portugal-Brasil e Japão-Brasil", sublinha o embaixador Hiroshi Azuma. Convidado para a receção foi o embaixador do Brasil, Luiz Alberto Figueiredo Machado, e a embaixatriz Maria Angélica Ikeda.

Depois da fotografia, tempo para uma pequena conversa com Ichikawa e também com Yasuo Yamada, presidente da KENREN, e Hatiro Shimomoto, que foi deputado estadual de São Paulo e é uma das figuras eminentes da comunidade, quase dois milhões de pessoas. "Para o ano, comemoramos 110 anos do início da emigração. Japoneses vieram em 1908 na sua maioria para trabalhar na agricultura", nota Shimomoto. "Em substituição dos escravos", acrescenta Ichikawa. Para Ichikawa e Shimomoto, Portugal já é um velho conhecido, mas para Yamada é novidade. "É bem diferente do Brasil. O clima, a segurança, as pessoas. E o sotaque é um pouco difícil para mim", diz este homem que, ao contrário dos companheiros, nasceu no Japão e emigrou adulto.

Visitaram também Sintra. Foram a Coimbra e não falharam Fátima, apesar de a maioria ser budista. "Eu sou católico, mas meus pais eram budistas. Costuma-se dizer que o japonês no Brasil nasce budista mas no cemitério usa cruz e ninguém se importa. Todo o mundo quer é ir para o céu", conta, de novo entre risos, Ichikawa, que realça como Portugal mudou para muito melhor desde a sua primeira visita em 1972.

Vindos para o interior do estado de São Paulo trabalhar nas plantações de café, os japoneses queriam enriquecer e voltar para o seu país, mas a Segunda Guerra Mundial mudou tudo. "A maioria percebeu que ia enterrar os ossos no Brasil. Decidiram permanecer e educar os filhos. Eu sou da geração que teve oportunidade de ir para a faculdade", diz Ichikawa. "Uma das minhas netas estuda em Portugal. E outra está a fazer mestrado no Japão. Falam um pouco de japonês, a que está em Tóquio melhor", acrescenta Shimomoto, que nota que é difícil promover o japonês porque "os jovens desde os anos 1970 ou 80 querem é falar português, serem vistos como brasileiros e irem para os Estados Unidos aprender inglês". Mesmo assim a cultura nipónica está na moda no Brasil e Ichikawa, que dirige o Festival do Japão, garante que os visitantes já são mais de fora da comunidade, atraídos pelo cosplay, pelo manga e pela comida".

Os nipo-brasileiros vão já na quinta geração e começa a haver crianças da sexta. Prósperos e muito educados, cada vez se casam mais fora da comunidade, "porque conhecem o marido ou a mulher na universidade", diz Yamada. Shimomoto concorda e acrescenta: "Casam-se com descendentes de europeus. É rara a família sem um casal misto. E há muito em comum entre os japoneses e os portugueses. São as duas raças mais trabalhadoras do Brasil. Os japoneses começaram na agricultura e progrediram para o comércio e a indústria, os portugueses também começaram na padaria ou com a quitanda."

Fonte: DN.PT



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