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MUNDO

06/11/2017

Dona Leopoldina e o Brasil português

Pesquisadora escreve sobre o Rio de 5 de novembro de 1817: data de chegada de Dona Leopoldina ao País

Há exatamente 200 anos. Era um dia bem especial para o Rio de Janeiro, para a família Bragança, para o "Reino do Brasil", e para a descoberta artística e científica do Brasil - pela Europa toda. Foi o dia da entrada do grande veleiro português "Dom João VI", na Bahia de Guanabara. Este navio trouxe com grande comitiva a pessoa mais esperada durante o ano inteiro: a filha do imperador da Áustria e irmã de Marie-Louise, a segunda esposa de Napoleão Bonaparte, a arquiduquesa Carolina Josepha Leopoldina, que pouco tempo depois, conforme seu pedido, passaria a ser chamada "Dona Leopoldina".

Ela já chegou casada, por procuração, com o príncipe herdeiro do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Dom Pedro de Alcântara. Ela tinha 20 anos, ele 19. Ela já chegou apaixonada pelo retrato do exótico príncipe, que tinha recebido em Viena, pelas mãos do Marquês de Marialva. O noivo foi mais receoso, pois tinha que deixar atrás uma atriz grávida, para cumprir os deveres dinásticos e políticos. Os dois eram tímidos, mas se gostaram à primeira vista - a história destas duas personagens não tem segredos. Cada gesto foi registrado por testemunhos de várias nações, descrito por extenso no livro mais completo sobre a vida de Dona Leopoldina, de Carlos Oberacker, de 1973 e 1988.

Desta chegada sabemos "tudo", e até foi registrado que, quem mais se entusiasmou logo com a jovem princesa loura de olhos azuis e de grande "pedegree", foi o sogro, Dom João VI, o rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Ele, então ainda príncipe-regente, tinha fundado este império por decreto, na véspera do aniversário da sua mãe, a rainha (louca) Dona Maria I, em 16 de dezembro de 1815, falecida em 20 de março de 1816. Este "Reino Unido" foi criado por sugestão do Conde de Palmela, que recebeu esta ideia do jeitoso representante da França, Charles-Maurice de Talleyrand, para que Portugal ficasse "maior" durante a reorganização do mundo, durante o Congresso de Viena, em 1815.

Era um império enorme, bem maior do que o da Áustria, reduzido por Napoleão, o reorganizador e desorganizador da Europa na primeira década do século XIX. E no fundo foi Napoleão o padrinho da reunião do jovem casal. Sem a invasão das tropas do líder militar em novembro de 1807, Dom João não teria fugido com toda a família, com o filho Pedro, de nove anos, e a mãe, rainha Dona Maria I, de 73 anos, em um dos navios que tinham buscado Dona Leopoldina em junho de 1817 em Livorno, na Itália.

Independência

A viagem com o veleiro "Dom João VI", que veio do estaleiro de Lisboa, demorou 86 dias, bem mais do que Américo Vespúcio precisava para viajar de Lisboa para chegar ao Cabo de São Roque, em 17 de agosto de 1503, para "discoprire" novas terras no sul desta costa.

Ele foi o primeiro que reconheceu que esta terra não era uma ilha, mas um continente e assim barrando a chegada à Índia, para conquistar o oriente pelo ocidente, como Colombo queria fazer.

Dona Leopoldina, como uma jovem muito bem educada e de interesses próprios, não mudou só a cabeça do marido - crescido em um ambiente meio selvagem - mas também todo o estado político desta terra que os portugueses consideraram seu quintal e uma arca de riquezas naturais e minerais que duraria para sempre.

No quadro lindíssimo de Georgina de Albuquerque, "O conselho", feito em 1922, cem anos depois da Independência, o espectador participa da sessão do Conselho de Estado, no dia 2 de setembro 1822, liderado por Dona Leopoldina como Regente, em que ela incentivou o marido ausente - que na realidade era português de coração, - de dar o grito de Ipiranga, "Independência ou morte"!

Um tema bem atual, olhando para a luta de Catalunha. No caso de Portugal e Brasil, era uma separação entre pai e filho, muito doloroso para o pai e arriscado para o filho. O conde de Palmela, em 1821, como ministro de relações estrangeiros, chegou ao Rio de Janeiro, então capital do Reino Unido. Queria uma solução mais suave, criando uma monarquia constitucional, conforme o modelo da Inglaterra, mas foi demissionado e voltou com Dom João em 26 de abril de 1821, pois as Cortes de Lisboa e o parlamento novo não aceitaram uma autonomia administrativa da ex-colônia, chamaram o rei de volta a Lisboa, mas assim aceleravam a separação.

Logo depois da Independência do Brasil, o maior problema era o reconhecimento do novo Governo, mesmo monárquico, e tendo uma constituição, feito por Dom Pedro I. Ele precisava do reconhecimento como império independente pelos governos da Europa, e conseguiu o de Portugal só em 18 de outubro de 1825, com pressão da Inglaterra. Portugal, quer dizer, o Rei Dom João VI restaurado, conformou-se com a perda da sua maior colônia, recebendo uma grande indenização, que Dom Pedro tomou de empréstimo de banqueiros ingleses.

Tragédia

A tragédia pessoal de Dona Leopoldina foi que no mesmo dia em que seu marido deu o simbólico grito de independência, ele caiu em dependência da mais tarde chamada Marquesa de Santos. E Dona Leopoldina, após ter dado à luz seis filhos, morreu aos 29 anos de idade, sem ter revisto seu querido pai, sua irmã Marie Louise e seus castelos e palácios.

Ela não chegou a ver que sua filha primogênita, Maria da Glória, aos 15 anos, se tornar Maria II, Rainha de Portugal, e que seu único filho sobrevivente, que tinha um ano quando ela morreu, tornou-se Pedro II, o segundo imperador do país gigante, o Brasil. O país hoje é tão grande porque Pedro I, logo no começo, como poder centralizador, abafou, desde 1823, com a ajuda do almirante inglês, Lorde Cochrane, todas as forças que queriam criar uma parte independente do Brasil, como a "Confederação do Equador", em 1824.

Neukomm

Temos que falar ainda de um compatriota de Dona Leopoldina, que já a esperou com ansiedade igual àquela da família Bragança: o compositor Sigismund Neukomm. Ele nasceu em 1778 em Salzburgo, em frente à casa de Mozart. Estudou música com o irmão de Joseph Haydn, em Salzburgo, e depois trabalhou com Haydn, Viena.

Foi como maestro a Petersburgo e Moscou e chegou a Paris em 1810. A partir de 1812, foi o músico e compositor particular do ministro de Napoleão Talleyrand, morando no palácio deste político especial, em Paris. Durante o Congresso de Viena (1814- 1815), Neukomm voltou à Áustria com seu "mecenas", tocando piano e compondo música sob encomenda do famoso e culto ex-bispo francês, Talleyrand.

Assim, a primeira grande obra de Neukomm foi o Réquiem para o rei Luiz XVI, decapitado em 1793, depois da morte de Marie-Antoinette, em janeiro de 1815, na Catedral de Viena. Dessa forma, foi restaurada a reputação de Luiz XVI como monarca, cujo sobrinho, o duque de Orléans, foi o futuro rei da França, depois da queda de Napoleão - e Talleyrand sabia como agradar ao novo rei.

Missão artística

O Marquês de Marialva procurou artistas para embelezar o novo centro do mundo português, o Rio de Janeiro, quando ele reuniu a mais tarde assim chamada "Missão artística francesa", com os pintores Taunay e Debret, e o arquiteto Grandjean de Montigny. Apareceu também na lista da chegada no Rio de Janeiro, em 6 de abril de 1816, o nome de Sigismund Neukomm, compositor e organista. Mas Neukomm veio meses mais tarde, em maio ou setembro de 1816, na comitiva do duque de Luxemburgo, para ficar apenas alguns meses.

Mas ele ficou quase cinco anos! Como músico da corte portuguesa, como professor de música de Dona Leopoldina e dom Pedro I - e certamente também como "informante informal" do seu patrão, Talleyrand.

O que restou da sua estadia na Corte do Rio de Janeiro foram cerca de 70 composições, entre particulares, como "Amor brasileiro", e também oficiais, para as princesas, a missa para a cerimônia da aclamação de Dom João VI como rei do Reino Unido, em 6 de fevereiro de 1818, e uma missa para o pai de Dona Leopoldina, o imperador da Áustria, que mais tarde até foi celebrada na Catedral de Colônia, sob sua regência!

Neukomm ensinou Dom Pedro, detentor de grande talento para a música e hábil em vários instrumentos, a fazer algumas composições, entre elas a famosa melodia para o "Hino da Independência" (Brava gente brasileira...). Seu melhor aluno, Francisco Manuel da Silva, o compositor do "Hino imperial", inspirou-se em uma melodia de Neukomm, "Fantaisie pour une flûte seule", de 1823, que se tornou também a melodia do novo "Hino Nacional" da República (Brasil, terra amada).

Neukomm resolveu voltar a Paris, poucos dias antes do regresso de Dom João VI para Lisboa, em 15 de abril de 1821. Assim, Dona Leopoldina perdeu ao mesmo tempo duas pessoas importantes para ela: seu sogro, que a adorou - ele levou um quadro dela que mandou fazer antes da partida! - e seu professor de música, para quem ela tinha trazido algumas composições autografadas de Mozart, novidade no Rio de Janeiro, que até então só tinha a influência da música italiana.

O primeiro livro sobre música publicado no Rio, em 1820, na Impressão Regia - por Joaquim Lebreton, traduzido do francês para o português - era sobre a vida e obra de Joseph Haydn, e foi dedicado ao Chevalier Sigismund Neukomm, que deve ter ajudado não só com detalhes da vida de Haydn, mas também na tradução.

Por curiosidade, tradutor e editor ficaram anônimos, mas sabemos que era o então Conselheiro José da Silva Lisboa - nascido na Bahia mas educado em Coimbra, contribuiu bastante na formação do novo império independente de Portugal, a única monarquia na America do Sul, o Brasil. Este país, no primeiro mapa mundi do século XVI, recebeu do jovem cartógrafo alemão Martim Waldseemüller o genial nome de "AMERICA", que veio para ficar, mesmo ao lado do nome mais antigo e mítico, "Brasil".

O Brasil era um país que os portugueses queriam esconder do mundo; já os holandeses, junto com o conde Maurício de Nassau exploraram e estudaram este "Novo Mundo", que depois foi fechado de novo, até Dom João anunciar a "Abertura dos Portos", em 28 de janeiro de 1808, e com Dona Leopoldina chegarem os novos "exploradores" da Europa, da Alemanha, Áustria, Franca, Itália e Inglaterra, os cientistas e naturalistas, seguindo os passos de Alexander von Humboldt, que tinha estudado o mundo de língua espanhola.

Agora a novidade era a terra fechada, o "paraíso do Vespucci", que terminou, para a maltratada Dona Leopoldina, sendo um "inferno" doméstico (duas vezes, ela e a "Marquesa de Santos" estiveram grávidas ao mesmo tempo, em 1824 e 1825). Mas hoje os restos mortais dela e do infiel esposo estão repousando em São Paulo, junto com a segunda esposa, Dona Amélia, da Baviera. Porém o coração dele - ao pé da letra - ficou em uma igreja no Porto, Portugal!

Fonte: Diário do Nordeste



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