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NEGÓCIOS E ECONOMIA

31/01/2018

Portugal – optimismo e realismo

Tal como uma pessoa, uma empresa ou uma economia, qualquer país necessita de uma salutar dose de otimismo, desde que este assente numa visão realista das situações em que se move. A autoconfiança realista é um fator de sucesso, enquanto a autoconfiança pouco realista é um fator de risco.

Recentemente, Portugal tem registado melhorias de diversos indicadores económicos relevantes, designadamente o crescimento económico em 2017, o decréscimo da dívida pública e um menor défice orçamental. Não seria razoável limitar-se a justificada satisfação por essas evoluções positivas. Mas é imperativo que se mantenha o realismo.

Portugal tem méritos próprios na materialização daqueles êxitos. Mas devemos também compreender que o contexto externo os ajudou. Contudo, essa mesma conjuntura envolvente irá agora esfriar. Acabamos de atravessar um período em que a estagnada economia da Zona Euro acelerou, embora sem espetacularidade. No entanto, esse crescimento económico irá diminuir em 2018 e ainda mais em 2019, reduzindo a sua capacidade de induzir crescimento em Portugal. E o país cuja economia mais interage com a nossa, a de Espanha, cresceu muito mais do que a portuguesa no passado recente, constituindo um impulso à nossa economia, mas nos próximos anos irá crescer bem menos. Esta conjugação de fatores externos, entre outros, contribuiu no passado recente para a maior atividade económica em Portugal, mas agora irá exercer uma influência mais ténue. O crescimento da nossa economia irá abrandar significativamente em 2018 e progressivamente nos anos seguintes. Dentro de 4-5 anos poderá estar a crescer a um ritmo de apenas metade do de 2017. Por conseguinte, parece prudente moderar as celebrações, inclusive porque uma desaceleração económica exercerá uma pressão negativa no controlo do défice e na capacidade de redução da dívida pública, que continua a ser enorme.

Por outro lado, é perigoso que em Portugal pareça ignorar-se que o futuro económico dos portugueses está dependente não apenas dos êxitos e desaires internos do país, mas também da rapidez e da profundidade da forma como os outros cerca de 200 países no mundo evoluem simultaneamente. Conceitos como o de competitividade não são absolutos, são relativos, porque se estabelecem em comparação com a evolução dos outros. Numa economia transnacional, globalizada e em queda das barreiras comerciais tarifárias e não tarifárias, dependemos de como os outros países evoluem, e não só de como nós próprios evoluímos. Todavia, a UE, e Portugal em concreto, parecem frequentemente voltados para o seu umbigo e em negação das realidades globais em que nos inserimos. Esta disfunção percetiva é um enorme perigo para os portugueses, porque nos reduz a lucidez estratégica.

Por exemplo, olhemos a nossa competitividade (conceito que é diferente do de produtividade). Em 2006 Portugal era a 33.ª economia mais competitiva do mundo (WEF) mas em 2017 era apenas a 42.ª. Esta evolução negativa não traduz necessariamente uma evolução negativa dentro de Portugal, mas certamente decorre também do facto de outros países terem evoluído muito mais que Portugal, ultrapassando-nos. Com maior competitividade que Portugal encontram-se agora países como a Lituânia, a Polónia, a Índia, a Indonésia, o Azerbaijão, o Chile, a Tailândia, a República Checa, a Estónia, a Malásia e Israel. Os portugueses, entretidos com trivialidades efémeras, parecem totalmente alheios à compreensão dos preocupantes significados destas realidades evolutivas, que são de fundo.

Contrariamente à ingénua noção de que o nosso universo é a União Europeia, vivemos num mercado muitíssimo mais vasto, que é agora global, no qual quase todos os países do mundo são simultâneos consumidores e competidores em todos os recantos do planeta. A evolução de uns exerce influências, positivas ou negativas, sobre a evolução dos outros. Assim, neste contexto em que Portugal se move nós vemos que a economia da Zona Euro crescerá, em 2018, a um ritmo que, sendo razoável, será decrescente e será de muito menos de metade do ritmo de crescimento económico nos países emergentes e em desenvolvimento, que congregam cerca de 85% da população global. Neste ano, a economia da eufórica Zona Euro crescerá, afinal, menos de um terço da da China e menos de um terço da da Índia, 2 países que, em conjunto, representam uma população correspondente a 8 vezes a população de toda a Zona Euro. Mas Portugal concentra-se em questiúnculas. Falta a visão estratégica do mundo, da economia, do futuro.

Quando Portugal se tornou membro da União Europeia (então CEE) era um dos seus países mais pobres. Os outros evoluíram e Portugal continuou na cauda dos pobres. A Irlanda era um dos nossos companheiros pobres da UE, mas agora cada irlandês já é mais rico que um alemão. Em 2004 a UE realizou o seu grande alargamento, praticamente duplicando o número de países membros num único instante. Esses novos membros eram, essencialmente, países do centro e leste europeu, acabados de sair da esfera de influência soviética com o fim da Guerra Fria. Esses países chegaram à UE mais pobres que Portugal, mais atrasados. Nesse momento, por este motivo, Portugal deixou de estar entre os mais pobres da União Europeia, simplesmente porque muitos outros eram ainda mais atrasados. Mas os anos foram passando, e muitos desses países que eram mais pobres que Portugal ultrapassaram o nosso país em prosperidade. Portugal tem, assim, estado a resvalar, novamente, para o grupo dos mais pobres da UE. Nestes anos fomos ultrapassados, em prosperidade, por países como a República Checa, a Eslovénia, Chipre, Malta ou a Estónia. Vários dos que ainda não nos ultrapassaram vão rapidamente a caminho disso, com ritmos de crescimento económico superiores ao nosso. O crescimento económico nos países “emergentes” da UE, que não integram a Zona Euro, é mais que duplo do crescimento na Zona Euro. Essa onda de países vai secundarizar-nos ainda mais. Mas os portugueses focam-se nas tricas do dia. Se olharmos um pouco mais longe, vemos que a prosperidade (em PIB per capita, a preços correntes) na Islândia é quádrupla da de Portugal, a de Espanha é quase 50% superior, a da Irlanda é quase quádrupla da nossa, a de Hong Kong ou de Singapura é mais que dupla.

Mas em Portugal entra-se em êxtase com muito pouco. Não se compreende o que se passa à nossa volta. E não se compreende que temos muito pouco tempo à nossa frente para retirar Portugal de um futuro dramático, porque o presente continua a ser de trivialidades. E com esta classe política (de todos os partidos) isso será implausível. Mas este rumo talvez se venha a revelar como um “crime” para com a próxima geração.



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