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NEGÓCIOS E ECONOMIA

20/02/2018

Governador alerta para a necessidade de reduzir o endividamento das empresas e investir - Portugal

Carlos Costa defende que “o crédito em incumprimento ainda é elevado” e sublinha que as empresas têm de estar empenhadas em reduzir a dívida para poderem aproveitar “o crescimento potencial”, caso contrário não será corrigida a trajetória da economia.

O governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa, alertou esta terça-feira na abertura da 5ª edição da Via Bolsa, que é necessário reduzir o endividamento da economia para evitar que o próximo ciclo de expansão não seja assente na criação de mais dívida, tornando a economia e as empresas mais vulneráveis em caso de crise.

Com agentes económicos assentes em dívida é maior o "grau de transmissão de choques a terceiros", sublinha o governador Carlos Costa, no evento criado pela Euronet Lisboa, onde são atribuídos prémios a personalidades da comunidade financeira que se destacaram em 2017. “Tanto em Portugal como na Europa a prioridade deve ser reduzir o nível de endividamento das empresas e ao mesmo tempo investir", frisou perante um plateia onde se encontravam pessoas ligadas aos mercados de capitais e à banca, corretores e gestores.

"Se não corrigirmos a situação em que nos encontramos hoje, isso significa que o próximo ciclo de crescimento se vai fazer acrescentando dívida à dívida (já existente), alimentando um novo volume de crédito. Aumentar o volume de crédito significa aumentar a fragilidade da economia", alertou.

Face à última crise - a de 2008 que levou à intervenção da Toika em Portugal - os níveis de dívida foram estabilizados, mas não regrediram, pelo que o mais provável é que o próximo ciclo de expansão da economia se faça "com dívida em cima de dívida", com risco para os agentes económicos, devido também à menor capacidade de absorção de perdas.

Exortou as empresas a que tenham mais capital próprio, quer aumentando a captação de capital, quer através da conversão de dívida em capital. Para isso é necessário quebrar a tendência da "política económica que favorece instrumentos de dívida e desfavorece instrumentos de capitalização".

“UM EURO DE CRÉDITO NÃO COBRADO É UM EURO DE DESPERDÍCIO"

Carlos Costa chamou a atenção para o elevado nível de crédito malparado dos bancos e para a necessidade de o reduzir. “Ainda temos níveis de NPL (crédito em incumprimento) muito elevados”, admitiu. “Não é possível absorver a crise, sem reduzir os níveis de NPL”, acrescentou. E explicou: “um euro de crédito não cobrado é um euro de desperdício".

"20% da poupança foi desperdiçada... Sob a forma de desperdício de capital", afirmou. "Tendo limitações de poupança e capacidade de financiamento, Portugal não se pode dar ao luxo de desperdiçar poupança ou destruir capital". Se o fizer, como tem acontecido, acaba por transferir património para o estrangeiro, disse, lamentando-o.

"Transformar em nova dívida não resolve problema. Resolver é transformar dívida em capital", afirmou. "Não é pensável que isto possa acontecer sem intervenção de mercado de capitais", afirmou. O mercado de capitais pode ser o meio onde se encontra quem precisa de financiamento e quem quer ter onde investir.

Sem um reforço do mercado de capitais as empresas ficam demasiado dependentes do sistema bancário, das variações das taxas de juro e dos choques a que este estiver sujeito, considerou. A falta de capital das empresa, defendeu, vai refletir-se negativamente nos bancos. É preciso termos informação, analistas, mercado e sanções, defende.

O governador considerou que a condicionar o desenvolvimento dos mercados de capitais estão "incentivos implícitos" nos impostos, que beneficiam o mercado bancário face ao mercado de capitais. E sublinhou a existência de fraca informação e transparência nos mercados de capitais, quer para as empresas quer para os agentes económicos individuais.

"Temos qualidade de informação que permita inspirar confiança em quem investe? Temos modelos de abertura de capital que permitam inspirar confiança", questionou. É necessário "criar confiança" no mercado de capitais para que as pessoas não tenham tanta aversão ao risco, frisou.

Carlos Costa defendeu que a economia portuguesa precisa tanto de um sistema bancário forte como de um mercado de capitais forte.

Fonte: Expresso.sapo



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