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31/07/2018

Fim do bônus demográfico [Reliance]

Profissional de economia em geral é um portador de más notícias. É o caso da coluna de hoje.

O IBGE divulgou na semana passada a atualização das estatísticas demográficas do Brasil. A última foi em 2013. Agradeço ao jornalista do Valor, Bruno Villas Boas, pela informação e os dados do IBGE.

A revisão alterou o momento em que o bônus demográfico acabará. Segundo as estimativas de 2013, o bônus terminaria em 2023 e agora sabemos que ele acaba este ano.

O bônus demográfico é o período do desenvolvimento demográfico de uma sociedade em que a taxa de crescimento da população em idade ativa (PIA), entre 20 e 64 anos, é superior à taxa de crescimento da população total (POP). Isto é, quando a taxa de crescimento da população de crianças, jovens e idosos é menor do que o crescimento da população em idade ativa.

Em 2019 será o primeiro ano, desde meados dos anos 70, em que a taxa de crescimento da PIA será inferior à taxa de crescimento da POP.

Os demógrafos são um pouco menos pessimistas, pois consideram o bônus demográfico como o período em que a razão de dependência – proporção de crianças, jovens e idosos na população – é inferior a 50%. Por este critério, o bônus demográfico terminaria em 2041, pela série antiga, e agora terminará em 2035.

O problema é que o crescimento econômico depende da diferença das taxas de crescimento da PIA e da POP, e não da razão de dependência. (Ver “Demographic transition and economic miracles in emerging Asia” de David Bloom e Jeffrey Williamson, publicado no World Bank Economic Review, 1998, volume 12, número 3.) Ou seja, o crescimento depende da alteração da estrutura etária, isto é, do filme, e não da fotografia da demografia. Nossa janela demográfica fechou-se.

No período do bônus demográfico, é possível o produto per capita crescer mesmo que o produto por trabalhador, a produtividade do trabalho, não se expanda. Basta que a população que trabalha cresça mais rapidamente do que a população total.

De fato, entre 1982 e 2016 o produto per capita do Brasil cresceu 1% ao ano, enquanto a produtividade do trabalho teve uma expansão anual de apenas 0,5%. A razão entre a PIA e a POP cresceu 0,5% ao ano no período (a PIA, portanto, cresceu mais que a POP).

A partir do próximo ano a demografia não ajudará. A única maneira de o produto per capita brasileiro aumentar será por meio da elevação da produtividade do trabalho. Resta-nos melhorar a qualidade de nossa educação e estimular atividades que elevem a produtividade, além de buscarmos reformas institucionais que aumentem a eficiência da alocação dos fatores de produção.
Sobre a eficiência na alocação dos fatores, tudo o que não necessitamos é reeditar a política econômica intervencionista praticada entre 2006 e 2014.

Um bom guia para procuramos melhorar nossas instituições na direção correta encontra-se no estudo espetacular de Santiago Levy, “Under-Rewarded Efforts: the elusive quest for prosperity in Mexico”, sobre a estagnação do México, apesar de anos com macroeconomia em ordem e da maior abertura da economia (mas sem corrigir e até agravando problemas institucionais e microeconômicos). Agradeço a Fernando Veloso, meu colega do Ibre, por me chamar a atenção desse estudo.

Fonte: Assessoria



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