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MUNDO

20/10/2018

'O Encontro Marcado', de Fernando Sabino, chega à 100ª edição

Para crítico, romance de 1956 é o primeiro grande exemplo de autoficção urbana

Desde sua publicação, em 1956, "O Encontro Marcado" não parou mais de circular e conquistar leitores. Uma tiragem estimulante para um único livro de autor nacional -mais de 500 mil exemplares-, chegando a ter duas reimpressões por ano em época de maior difusão no currículo básico de ensino.

Pois agora a obra está batendo uma marca histórica: a centésima edição, que a Record mandou para as livrarias no dia 12 de outubro, quando Fernando Sabino completaria 95 anos.

"É o primeiro grande exemplo de autoficção urbana. Sabino tem preocupação, escrita e temática de jovem. Tem lastro artístico e deixa o clássico 'Menino de Engenho', de José Lins do Rego, no chinelo", afirma o escritor e crítico literário Silviano Santiago.

"Em suma, ele começa a escrever para o futuro e poderosíssimo grupo de leitores classificados como 'young adults' antes que a sigla de sucesso comercial tivesse sido inventada", completa o crítico.

No livro de memórias "Tabuleiro de Damas", publicado em 1988, Fernando Sabino confessa que o sucesso imediato o impressionou, e continuaria a surpreender ao longo do tempo: "A minha vida havia chegado a um impasse. Foi uma espécie de 'apuração de haveres' –este seria a princípio o título do livro".

"Não teria condições de sobrevivência se não escrevesse sobre o que tinha vivido até aquele momento. Tinha um encontro marcado comigo mesmo", revelou o escritor, que estava com 30 anos quando iniciou a obra. 

Ele havia se separado da primeira mulher, Helena, devolvido o cartório que ganhara como presente de casamento do sogro –o governador Benedito Valadares, velha raposa da política de Minas Gerais– e viajado em 1946 para uma longa temporada nos Estados Unidos.

"A fórmula do sucesso de 'O Encontro Marcado' se encontra nas crônicas que Sabino escreve logo depois da guerra, em Nova York, reunidas no livro 'Cidade Vazia'. Numa literatura dominada pela temática regionalista, que culmina com a publicação de 'Grandes Sertão: Veredas', o escritor se apresenta como voz vitoriosa e livre de preconceitos, voz jovem e urbana, evidentemente norte-americanizada", aponta Santiago, lembrando a semelhança do livro com "Este Lado do Paraíso", o romance de estreia de F. Scott Fitzgerald.

Depois dos contos de "Os Grilos Não Cantam Mais" (1941) e das novelas de "A Vida Real" (1952), o autor trabalhou em duas obras de maior fôlego: o inacabado "O Ponto de Partida", saga de uma família mineira, "roman fleuve" na linha de "Os Buddenbrook", de Thomas Mann; e, mais ou menos de brincadeira, o esboço do que seria "O Grande Mentecapto", mistura de "Dom Quixote" com "Gargântua e Pantagruel", só concluído para valer em 1979.

"Sabino adota como modelo o romance de formação que vem de Goethe, passa por Flaubert e desemboca no Joyce de 'Retrato do Artista Quando Jovem'", resume Silviano Santiago.

"O Encontro Marcado" teve três versões e "1001 descaminhos", segundo o autor, que gastou no original mais de 1.400 páginas para aproveitar 300 e poucas. A primeira edição saiu pela Civilização Brasileira –3.000 exemplares que se esgotaram em dois meses.

Mesmo com o livro publicado, Sabino continuou trabalhando nele. Autran Dourado, em seu ensaio "Uma Poética de Romance", sugere que a segunda edição recebeu "um verdadeiro banho de soda cáustica no estilo".

Fonte: Notícias ao Minuto



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