home > notícias

MUNDO

03/04/2019

Exposição de William Forsythe faz público criar coreografia inusitada

Com 11 obras, 'Objetos Coreográficos' ativa no público percepções diferentes sobre seus próprios movimentos

IARA BIDERMAN - SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 400 pêndulos descem do teto até poucos centímetros do chão, os fios balançando de forma ritmada criando linhas imaginárias no espaço. O público pode entrar e sair da instalação à vontade. A única restrição: os pêndulos não podem tocar no corpo de quem caminha entre eles.

"Em Nenhum Lugar e em Todos Lugares ao Mesmo Tempo" é um dos "Objetos Coreográficos", conjunto de instalações, vídeos ou artifícios sonoros e visuais para fazer o público dançar ou ser o performer-criador de uma coreografia inusitada.

"Percebi que era possível expressar princípios coreográficos sem bailarinos profissionais", diz William Forsythe. Um dos maiores coreógrafos da atualidade, Forsythe criou os primeiros objetos coreográficos no início dos anos 1990.

Esses trabalhos serão vistos e experimentados pela primeira no Brasil a partir desta terça, 26, em exposição do Sesc Pompeia, em São Paulo.

Em comum, as 11 obras da mostra se caracterizam por ativar no público percepções diferentes sobre seus próprios movimentos. Forsythe conta que, quando começou a criar esses objetos, também mudou sua forma de perceber a dança, algo diferente de coreografia, segundo ele.

"O processo coreográfico tem a ver com habilidades organizacionais e categorias de movimentos. Nestas obras, sem bailarinos, consigo isolar melhor categorias particulares de movimentos."

Sem bailarinos, mas com seres moventes, partes indispensáveis das instalações. Os objetos e estímulos visuais e sonoros são convites para o espectador experimentar as possibilidades de movimentação do corpo em um terreno de estranhamentos.

Instruções sobre como interagir com cada elemento da exposição obrigam o público a pensar antes de reproduzir um gesto banal como atravessar um espaço de uma ponta a outra. Lembre-se, é preciso se desviar dos pêndulos para não ser tocado por eles.

O efeito é tirar o sujeito do piloto automático em sua relação com o objeto artístico. Desautomatizar a linguagem, o olhar, o sentir está na base de toda arte, como lembra Veronica Stigger, curadora da exposição em São Paulo.

Escritora, curadora independente e crítica de arte, Stigger considera a questão do corpo central em vários de seus trabalhos. Os corpos selvagens das fotos de Eduardo Viveiros de Castro ou das esculturas de Maria Martins, em exposições curadas por ela, conversam com aqueles obrigados a se mover no imprevisível por força dos objetos de Forsythe.

Ou a se perceber imobilizado. Não se mexer e ficar congelado em uma posição fixa também é um elemento de coreografias e, cada vez mais, da vida das pessoas.

"Defensores parte 3" cria uma situação de paralisia, colocando o público em frente a teleprompters repetindo frases que nunca se completam: "Nós, que não achamos que não seria tão ruim", "Nós, que não queríamos interferir"...

A obra é a que mais reflete as condições de temperatura e pressão atuais, embora todos os objetos da exposição sejam visceralmente políticos, segundo Stigger.

Nada é óbvio e não diz respeito a uma situação específica da atualidade. "Defensores" foi criada em 2009.

 

Para Forsythe, é um mantra da inatividade. "Há sempre paralelos políticos, pode estar relacionado com o que está acontecendo no Brasil ou em outros países, mas não há uma relação direta", diz o artista.

Duas obras em cartaz foram criadas especialmente para a exposição em São Paulo.

"Insustentáveis" é um conjunto de painéis e fones de ouvido com instruções para o público se movimentar. Submetida a dois estímulos, sonoro e visual, a pessoa é instruída, por exemplo, a colocar um pé na frente do outro e balançar os braços em várias direções.

Parece simples? "A execução é quase impossível", afirma o coreógrafo, cujas criações para o palco exploram ao máximo a virtuose de bailarinos profissionais.

O outro trabalho inédito, "Instrução, São Paulo", é de mais fácil execução, mas também tira o espectador da zona de conforto ao obrigá-lo a erguer cada vez a cabeça para ler as frases em paetê colocadas em alturas de até 30 metros nas passarelas do conjunto esportivo da unidade do Sesc.

Fonte: Notícias ao Minuto



NOTÍCIAS RELACIONADAS
19/11/2019
“Escapes”, Ricardo van Steen [Brasil]
19/11/2019
Cruz-Diez: a liberdade da cor [Brasil]
19/11/2019
Fantasma da ópera estreia em Lisboa [Portugal]
19/11/2019
O que vemos quando olhamos dança? Com Beth Bastos e núcleo pausa [Brasil]
19/11/2019
Emigrantes animam a economia do país no verão [Portugal]
19/11/2019
As 13 Bandeiras do Brasil e sua importância histórica e cultural para o povo brasileiro [Brasil]