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MUNDO

07/05/2019

Louis C.K. com quatro espetáculos em Lisboa neste mês de maio

O humorista norte-americano de 51 anos fará quatro sessões de comédia nos dias 24 e 25 de maio. Os espetáculos serão para "maiores de 18 anos" e os bilhetes começarão a ser vendidos esta terça-feira.

 

O comediante norte-americano de 51 anos Louis C.K. vai atuar em Portugal neste mês de maio. Nos dias 24 e 25, Louis C. K. vai apresentar-se em sessões duplas diárias no Maxime Comedy Club, o clube de comédia instalado no hotel Maxime, localizado na Praça da Alegria, em Lisboa. Os espetáculos serão “para maiores de 18 anos” e os bilhetes começarão a ser vendidos esta terça-feira “à tarde”, na Ticketline, avança a organização.

 

Nestas sessões, duas em cada dia, às 19:00 e às 22:00, “não será permitida a captação de imagens e som”, avança a produção. Para garantir que tal acontece mesmo, os telemóveis dos espectadores serão colocados, no início de cada espetáculo, numas bolsas que ‘trancam’ os aparelhos, as chamadas bolsas Yondr, que pela primeira vez serão usadas numa sala de espectáculos em Portugal. Casa espectador terá de colocar o seu telefone na bolsa, que fica trancada durante toda a atuação e só pode ser destrancada à saída, nos locais específicos para o efeito.

Estes serão os primeiros espetáculos de Louis C.K. em Portugal, em mais de 30 anos de carreira. Considerado uma das referências maiores do humor norte-americano —  autor de marcantes especiais de comédia stand-up (espécie de espetáculos de comédia a solo, em formato monólogo), realizador, argumentista e criador da série Louie e vencedor de seis prémios Emmy —, Louis C.K. foi também ator, por exemplo nos filmes “Golpada Americana”, “Blue Jasmine” e “Trumbo”. Criou ainda, com a atriz, produtora, argumentista e realizadora Pamela Adlon (que também foi atriz e protagonista), a série cómica e dramática “Better Things”, que começou a ser exibida em 2016.

Louis C.K. começou a carreira nos anos 1990, a escrever para outros humoristas, como David Letterman e Conan O’Brien. Pelo seu humor cáustico, nem sempre polido mas quase sempre incisivo, ganhou fama internacional, tornando-se um humorista de referência até para outros candidatos a comediantes.

Em 2017, o comediante norte-americano foi acusado de um comportamento sexual indecoroso: masturbação à frente de mulheres e colegas de profissão. As acusações, que imputavam a Louis C.K. aproveitamento do seu poder na indústria do entretenimento, vieram reforçar relatos anteriores, mas, tendo surgido após a explosão do movimento internacional de denúncia contra atos de assédio sexual #metoo, fizeram a polémica ganhar maiores proporções.

 

Foram quase imediatas as consequências da polémica. No dia seguinte ao artigo que o colocou no centro das denúncias de assédio sexual a figuras de Hollywood, publicado pelo The New York Times, Louis C.K. admitiu que as acusações eram verdadeiras e pediu desculpa pelo comportamento, afirmando no entanto que “na altura, achei que não havia problema nenhum porque nunca tinha mostrado o meu pénis sem pedir primeiro”. Ainda assim, admitiu que terá abusado do seu poder na indústria do entretenimento e confessou acreditar que foi este poder que “impediu” vítimas suas de “partilharem as suas histórias” ou lhes trouxe “dificuldades” quando o fizeram.

Louis C.K. viu então a distribuição do seu filme “I Love You, Daddy” ser cancelada. A estação FX, com a qual tinha contrato, anunciou que tinha cortado os laços com o humorista, enquanto a Netflix revelou que — ao contrário do inicialmente esperado — já não iria avançar com a produção e exibição de um especial de comédia stand-up de C.K. na sua plataforma. O comediante foi ainda retirado de muitos projetos com os quais já se havia comprometido, como “Night of Too Many Stars” (da HBO), “The Cops” (da TBS), a sequela de “The Secret Life of Pets” (dos estúdios de cinema de animação Illumination) e “Gravity Falls”, da Disney Channel.

O regresso aos espetáculos de comédia stand-up aconteceu no último ano, mas desde que foi alvo das acusações de assédio sexual que se debate se a reação às suas piadas mais populares — nomeadamente sobre masturbação e mulheres — é incólume às novas informações relativas ao seu comportamento sexual.

[O solo de Louis C.K. no Teatro Beacon, em Manhattan, Nova Iorque, foi um dos mais marcantes da sua carreira. Disponibilizado em 2011, foi distinguido com um prémio Emmy:]

“É completamente injusto ignorar a herança dele”

Em entrevista ao Observador, o jovem humorista português Manuel Cardoso deu recentemente a sua opinião sobre o assunto: “Há duas questões. Uma: acho que o que ele fez é bastante desagradável e tem problemas a vários níveis. Duas: não tem sentido o clima de perseguição a ponto de ele ficar proscrito de todos os sítios em que se faz comédia. Também não concordo com isso, com ele não dever voltar a trabalhar. Isso à partida não é bom e é um bocado desproporcional”.

Uma das coisas que me atraía no Louis C. K. era ele conseguir ser muito inteligente com o escatológico, com o nojento, com temas como a masturbação, o sexo e a vida dele de solteiro. Falava muito dos seus próprios órgãos sexuais e da sua natureza de creep [pessoa bastante estranha]. Eu achava graça porque achava que aquilo era uma intelectualização dele e não ele próprio [risos]. Ter chegado à conclusão de que aquilo era mesmo ele faz com que uma pessoa fique um bocado de pé atrás, porque significa que o Louis C.K. é no mínimo um bocado nojento. Sentir que as piadas dele estão tão perto do que ele é afasta-me um bocadinho daquele tipo de material [humorístico], mas continuo a achar que é completamente injusto estar a ignorar a herança dele”, apontou.

Para Manuel Cardoso, a herança do humorista norte-americano na comédia é avassaladora: “Fez com que toda a gente começasse a fazer solos com texto novo de ano a ano e o nível de stand-up dele continua a ser um dos mais altos que já houve. Sinto que ele poderia ter uma atitude mais humilde em relação àquilo [acusações de que foi alvo], não porque resolvesse grande coisa, mas porque se calhar não lhe criava mais problemas agora”.

Pouco depois da polémica rebentar, em entrevista à revista Sábado, Ricardo Araújo Pereira deu a sua opinião sobre Louis C.K.: o que este fez “é grotesto” e “uma desilusão”, disse RAP, mas não o impede de “soltar uma gargalhada das grandes” quando for ver “um dos seus vídeos dele antigos ao Youtube”.

Quase um ano e meio antes de Louis C.K. ter sido confrontado com as acusações de assédio sexual que o tornaram quase proscrito na indústria de entretenimento norte-americana, o humorista português Bruno Nogueira publicou uma fotografia no Facebook com a seguinte legenda: Depois de ontem ver o Louis CK, vos digo: que espectáculo absolutamente demolidor. Está no seu pico de forma. Tudo certo, do princípio ao fim. Até a parte em que um tipo à minha frente foi expulso depois de 30 avisos na sala de que era proibido captar imagens, estava certa. Que noite memorável”.

Fonte: Observador



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