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MUNDO

16/12/2019

Morna proclamada oficialmente Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO

Apesar de ter sido anunciado já em novembro, só agora é que a decisão final foi tomada. A morna foi criada no século XIX e é considerada a "música rainha" de Cabo Verde.

A morna, género musical típico de Cabo Verde, foi proclamada esta quarta-feira Património Imaterial Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

A decisão final sobre a ratificação da classificação, que já tinha recebido o aval da comissão de peritos em novembro, foi adotada esta quarta-feira, na 14.ª reunião anual do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, que decorre desde segunda-feira no Centro de Congressos Agora, em Bogotá, Colômbia.

"Declaro a decisão adotada", anunciou, cerca das 11:55 locais (16:55 em Lisboa), María Claudia López Sorzano, secretária para a Cultura, Lazer e Desporto da cidade de Bogotá e que preside a esta reunião anual do Comité, depois de questionar os delegados sobre eventuais adendas, alterações ou debate sobre a proposta de classificação, que não surgiram.

Além da morna de Cabo Verde, o comité está a analisar a ratificação de outras 39 candidaturas a Património Cultural Imaterial da UNESCO.

A cantora cabo-verdiana Nancy Vieira e o multi-instrumentista Manuel de Candinho acompanham o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, que lidera a comitiva de Cabo Verde em Bogotá, que comemorou a proclamação ainda na sala da reunião.

Reunido pela primeira vez na América Latina, este Comité Intergovernamental é atualmente composto por representantes da Arménia, Áustria, Azerbaijão, Camarões, China, Chipre, Colômbia, Cuba, Djibuti, Filipinas, Guatemala, Jamaica, Japão, Cazaquistão, Kuwait, Líbano, Maurícias, Holanda, Palestina, Polónia, Senegal, Sri Lanka, Togo e Zâmbia, sendo as decisões tomadas por unanimidade destes membros.

A «música rainha»

Considerada popularmente "música rainha" de Cabo Verde, como recorda "Nôs morna", uma das mais conhecidas mornas, do poeta Manuel d`Novas, o dossiê da sua candidatura a Património Imaterial Cultural da UNESCO, com mais de mil páginas e cerca de 300 entrevistas, foi formalmente entregue pelo Governo cabo-verdiano em 26 de março de 2018. De acordo com o dossiê da candidatura, a morna terá surgido no século XIX, não sendo consensual a origem do nome e ilha onde nasceu: Boa Vista ou Brava.

"A morna é uma prática musical que se estrutura em três dimensões: melodia, poesia e dança, caracterizando-se pelo compasso quaternário, ritmo lento e predominância dos esquemas tonais menores clássicos perfeitos de influência europeia", lê-se ainda no processo.

Interpretada em crioulo cabo-verdiano por uma voz solista, homem ou mulher, apesar de existirem também mornas apenas instrumentais, e versando temas "lírico-passionais, produz-se uma canção melancólica, muito vinculada ao sentimento do amor, ao sofrimento, à saudade, à ternura, à tristeza, à ironia e à boa ou má sorte do destino individual".

Proclamação «histórica»

O Presidente cabo-verdiano disse que a proclamação da morna a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO é uma "data histórica" e espera que possa contribuir para aprofundar o seu estudo, divulgação internacional e aprendizagem pelos mais jovens.

«Quero dar os meus parabéns a todas as equipas envolvidas neste processo, pelo sucesso obtido, e desejar que esta importante classificação possa contribuir para o aprofundamento do estudo da morna, sua maior divulgação internacional, maior aprendizagem pelos mais jovens, e o desenvolvimento de todos os requisitos que resultam deste novo estatuto, para o bem da nossa música, da nossa cultura, e desta terra sonora que é Cabo Verde», escreveu Jorge Carlos Fonseca.

O texto foi publicado na sua página da rede social Facebook, minutos depois de o género musical ser classificado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), na 14.ª reunião anual do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da organização, que decorre desde segunda-feira no Centro de Congressos Agora, em Bogotá, Colômbia.

Para o chefe de Estado cabo-verdiano, a classificação vem coroar não apenas quem apresentou a candidatura, mas também aqueles que deram continuidade e este "desígnio nacional", bem como aos milhares de músicos, compositores, intérpretes, cantadeiras, amantes e apaixonados por este estilo musical, nas ilhas, na diáspora ou mesmo nos diversos cantos do mundo.

"É com grande júbilo que recebemos a notícia de que a morna é, a partir de agora, oficialmente, Património Imaterial da Humanidade, classificada pela UNESCO, ao lado de diversas outras expressões artísticas e culturais", notou.

Jorge Carlos Fonseca traçou o percurso histórico da morna, desde a sua criação, considerando que é um "reconhecimento oficial", pela UNESCO, do humanismo que esta forma particular de expressão identitária encerra.

O Presidente disse que a proclamação é também um "grande júbilo para todo o povo cabo-verdiano, nas ilhas, mas sobretudo na diáspora, lá onde a morna é sentida de forma muito própria, onde se assume como espaço imanente desse sentimento intrinsecamente da terra crioula".

A candidatura de Cabo Verde foi alicerçada na cultura popular que manteve viva a morna até aos dias de hoje, alimentada por músicos e intérpretes de todas as idades. O processo levado à UNESCO conta com 77 declarações individuais de consentimento e apoio, de instrumentistas, compositores e interpretes de morna, até artesãos e construtores de instrumentos de corda.

O dossiê cabo-verdiano contou com o apoio técnico de Portugal e com a colaboração do antropólogo Paulo Lima, especialista português na elaboração de processos de candidatura a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, como o fado, o cante alentejano e a arte chocalheira.

Fonte: Revista PORTCOM 



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