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MUNDO

28/01/2020

Wim Mertens: 40 anos entre o erudito e o popular

Casa da Música e Centro Cultural de Belém são as salas portuguesas onde o compositor belga Wim Mertens celebrará quatro décadas de carreira. A acompanhar os concertos de quarta-feira e domingo, a edição da retrospectiva Inescapable.

Wim Mertens era um produtor da BRT (a emissora pública de rádio e televisão flamenga), e um melómano apaixonado pelas obras de Steve Reich e de Philip Glass, quando iniciou a sua carreira de compositor em 1980. E fê-lo com um gesto bastante singular, muito distante da sonoridade que hoje lhe associamos. Através de um importador de máquinas de flippers sediado em Antuérpia, conseguiu o empréstimo de duas delas durante algumas semanas, gravou centenas de horas de possíveis combinações de sons dali extraídas e depois dedicou-se a aplicar-lhes uma das ferramentas fundamentais da sua ocupação profissional de então: uma minuciosa edição do material que tinha registado em fita, ao qual acrescentou depois alguns elementos de resposta musical. Inspirado pela frase que por imposição legal figurava nos flippers, chamou a essa gravação For Amusement Only. E a partir daí, não mais parou.

É esse ponto de partida que o compositor belga celebra em 2020, comemorando 40 anos de carreira com a edição de uma ambiciosa caixa retrospectiva intitulada Inescapable (61 peças distribuídas por quatro CD) e uma digressão que passa pela Casa da Música, no Porto, esta quarta-feira, e pelo Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no domingo. Apesar de a electrónica de For Amusement Only não ser a linguagem com a qual Mertens ganhou maior protagonismo na cena musical europeia, a verdade é que muitos dos pressupostos que continuou a explorar se alicerçam claramente nesse primeiro gesto: formas minimais, uma vontade declarada de evitar a instrumentação clássica e, ao mesmo tempo, um desejo não menos claro de apagar os mandamentos da música avant-garde que imperava nos anos 70. Daí que o seu terceiro álbum, Vergessen, tenha sido baptizado com um vocáculo alemão sinónimo de esquecimento. “Senti que tinha de esquecer muitas das opções dominantes desse período da música e que tinha de recomeçar do zero”, explica ao PÚBLICO. Por muito que Vergessen (1982), editado após At Home: Not at Home (1980), recorresse já a músicos e instrumentos convencionais, Mertens via-se como um compositor que era também intérprete das suas peças, assegurando pianos (acústico e eléctrico) e vozes nas gravações.

“O compositor, nos anos 60 e 70, estava sobretudo envolvido na criação da partitura, não era tanto um intérprete nem estava implicado na praxis da performance”, recorda. “Quis colocar aí uma nova tónica. E a forma como gero as minhas peças é também diferente da prática de então, uma vez que a minha música está muito explicitamente ligada à presença da voz. Em Struggle for Pleasure [1983] ou At Home: Not at Home, por exemplo, provavelmente estava a cantar enquanto compunha as peças, mesmo que na versão final possam escutar-se apenas os instrumentos. Mas a voz era o meu guia pessoal, algo em que podia confiar.” Em conversa com vários compositores belgas, percebeu que o período do pós-guerra trouxera uma desconfiança em relação à voz que ele não partilhava; enquanto à sua volta assistia a um mergulho “numa espécie de serialismo, uma música baseada em cálculos, eliminando o input subjectivo do compositor”, Mertens quis romper com essa corrente e, progressivamente, centrar o seu discurso musical em opções melódicas e num formato algures entre a música erudita contemporânea e a música popular.

a música popular, aliás, “há uma grande dinâmica para fazer coisas novas”, defende. Contrapõe-na ao imobilismo do campo clássico, em que “os cantores de ópera continuam a cantar todos da mesma forma, sempre com a mesma técnica”. De resto, começou a observar na pop “um fenómeno muito curioso": “A cada cinco, seis, sete anos, vemos uma nova voz surgir e afirmar-se – tivemos Thom YorkeLana del Rey e, agora, Billie Eilish.” E essa alteração, admite Mertens, interessa-lhe por aquilo que comporta de mudança de paradigma: o risco.

Fonte: Publico



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