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MUNDO

09/03/2020

Thierry Fischer faz sua estreia como novo maestro da Osesp

Em três concertos, a orquestra interpreta a 'Missa Solene' de Beethoven.

No começo, o vazio, o silêncio. Então, é como se fôssemos colocados em um estado de suspensão. E logo em seguida, a guerra. "Não dura mais do que dois segundos", diz o maestro Thierry Fischer. Canta o começo da peça, uma, duas, três vezes. Olha para o alto. "Toda ideia de eternidade e transcendência", ele começa, mas faz uma pausa. "Viemos do pó, voltamos ao pó. Aquele primeiro silêncio, isso me pega todas as vezes."

No final da tarde de terça, em sua nova sala no 2.º andar da Estação Júlio Prestes, Fischer está falando da Missa solene de Beethoven - obra com que faz nesta quinta, 5, sexta e sábado sua estreia como regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, substituindo a maestrina Marin Alsop.

"Beethoven cria algo tão complexo, mas uma complexidade que fala diretamente conosco. A Missa é visionária como só uma obra de arte pode ser, como uma pintura de Picasso, um Giacometti, que revelam a nós milagres possíveis." Outra pausa, o olhar para o alto. "Poderia sentar aqui e falar de cada pedaço da Missa, mas não vou fazer isso."

Ele está mentindo. "Pensa no Gloria, nessa alegria inocente. Então, o Sanctus" - ele canta um pedaço da música, bate as mãos na mesa. "E o Credo, no qual na verdade ele nos coloca uma dúvida: será que devemos crer?" - Fischer abre os braços, grita, como se repetindo as palavras do coro. "É complexo, mas o lado obscuro da complexidade. É perturbador." Outra pausa. "É um privilégio ser perturbado por uma obra de arte."

Maestro suíço é o sexto titular da história da orquestra

Thierry Fischer é o sexto maestro a ocupar o posto de regente titular da Osesp, em uma história que já se convencionou separar em dois momentos distintos. A orquestra foi criada em 1954, quando foi dirigida por Souza Lima e Bruno Roccella. No início dos anos 1970, começou a até hoje mais longa parceria artística do grupo com um maestro, Eleazar de Carvalho, que ficou no posto até sua morte, em 1996.

Foi então que a Osesp passou pelo processo de reestruturação. E, com John Neschling como diretor artístico, viu episódios como o nascimento da Sala São Paulo, em 1999, e a transformação da orquestra em uma fundação, o que aconteceu em 2005.

Neschling deixou o posto em 2009. Decidiu-se, então, fragmentar o poder artístico no grupo, com a nomeação de um diretor artístico (Arthur Nestrovski, que segue no cargo) e de um regente titular, Yan Pascal Tortelier, que trabalhou em 2010 e 2011.

Marin Alsop chegou em 2012 e esteve à frente da orquestra, primeiro como regente titular e em seguida como diretora musical, durante oito temporadas. Abrindo espaço, então, para Fischer, cujo contrato inicial é de quatro anos (como também havia sido o de Alsop).

Com exceção do vácuo artístico do período Tortelier, que nunca mais voltou a reger a orquestra, cada maestro do período pós-reestruturação ofereceu ao grupo um caminho.

John Neschling fez do repertório da passagem do século 19 para o século 20, em especial as sinfonias de Mahler e mais tarde peças de Strauss, o ponto de partida para a construção do que defendia como identidade sonora da Osesp.

Alsop, dentro da proposta artística mais ampla de Arthur Nestrovski, também fez sua integral de Mahler com a orquestra, mas suas escolhas mais pessoais recaíram sobre a música americana do século 20 e a música russa do mesmo período - com a integral das sinfonias de Prokofiev, por exemplo, gravadas para o selo Naxos.

O primeiro ano de Fischer já dá algumas pistas do que ele pretende trabalhar com a orquestra. Além das sinfonias de Beethoven, obrigatórias por conta dos 250 anos do compositor, ele vai reger Berg, Schoenberg e Webern, autores da chamada segunda escola de Viena, símbolos da vanguarda do começo do século 20.

De certa forma, é a sequência do repertório que marcou a identidade da orquestra nos anos Neschling. "Ouvindo você colocar esse percurso de repertório dos últimos 20 anos, acho que faz todo sentido", ele diz. "Mas o critério não foi esse. A segunda escola de Viena exige algo que Beethoven também exige: a precisão é importante para dar sentido a essas obras, assim como a capacidade dos músicos de ouvir uns aos outros. Quando você trabalha isso, se dá uma reação em cadeia que vai perpassando todo o repertório."

Fonte: Terra

 



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