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22/04/2020

O valor (in)justo das empresas e a motivação para pequenas fraudes [Crivah]

Há uma anedota conhecida em que se pergunta para diferentes profissionais quanto é ‘2+2’, o matemático diz logo que é 4, já o engenheiro responde “4, mas com o coeficiente de segurança é melhor colocar 5”, já o advogado diz “depende, se for para receber é 22, se for para pagar é 4”, por fim ao se questionar para o contador, ele responde: “quanto você quer que dê?”.

A adoção das normas Internacionais de contabilidade (IFRS) se caracteriza por dar grande relevância à marcação a mercado dos ativos e passivos da empresa, com isso as demonstrações financeiras tenderiam a apresentar valores mais próximos da realidade, entretanto o processo de avaliação de ativos e passivos é muitas vezes repleto de premissas subjetivas, dando margem para avaliações tendenciosas, por isso muitas vezes os laudos de avaliação não devem ser levados tão a sério, ainda que feitos por uma empresa renomada.

Imagine que você queira comprar um carro e pede para que o seu amigo faça uma avaliação de um veículo que você está de olho, você diz para ele que precisa de um valor preciso, pois se for muito baixo você perde a compra e se for muito alto você perderá dinheiro. – é provável que nessas condições o seu amigo se esforce para chegar ao valor mais condizente possível para aquele veículo. Agora imagine que você já comprou o carro e gastou $ 50.000 na compra, mas você precisa provar para a sua esposa que foi um bom negócio, caso contrário ela irá mandar você se desfazer do negócio, então você chama o seu amigo, conta a sua situação e pede para que ele diga quanto vale o carro comprado – é mais provável que ele diga quanto realmente vale o carro ou que ele procure motivos para dizer que o carro vale mais de $50.000 e, portanto, teria sido um bom negócio?

O problema dos laudos de avaliação é que eles geralmente são feitos após a negociação, de modo que o avaliador se encontra diante de um cenário de interesses que aponta não para um valor justo, mas para um valor específico, condicionando à partida a avaliação do ativo. Obviamente que os avaliadores não querem colocar em xeque a credibilidade do seu trabalho, por isso muitas vezes mantêm-se dentro de uma margem de ‘aceitabilidade’ das suas premissas, puxa-se um pouquinho daqui, incrementa-se um pouco ali e ‘voila’ chega-se a um valor justificável para o ativo que atinja os objetivos do avaliado. – Notem a diferença, não se busca um valor justo, mas um valor justificável. – São pequenas alterações ‘aceitáveis’ e aparentemente inocentes que ajudam o avaliador atingir seu objetivo.

A pergunta que paira é: Até que ponto tais ajustes podem ser enquadrados como ação de má fé do avaliador? Talvez seja só uma questão de intensidade e bom senso, mas o uso abusivo desses ‘ajustes aceitáveis’ pode ser perigoso. Andrew Fastow, ex-diretor da Enron que passou cinco anos preso por ter participado do esquema fraudulento da empresa disse em recente entrevista para o Valor Econômico que “Marcação a mercado é como heroína. Uma vez que se começa a usar é muito fácil abusar disso e se tornar mais e mais viciado.”, justamente porque a marcação a mercado permite a inclusão de fatores subjetivos ‘justificáveis’ que sustentariam o valor de determinado ativo.

Dan Ariely, pesquisador da Duke University e autor do livro “A mais pura verdade sobre a desonestidade” colecionou uma série de exemplos de grandes fraudadores que começaram com doses ‘aceitáveis’ de desonestidade e em pouco tempo se tornaram grandes vigaristas.

Assim como no exemplo dado sobre a compra de um carro, as motivações do avaliador podem dizer muito mais sobre o valor do ativo do que a própria avaliação. Até que ponto a interferência do avaliador sobre a sua avaliação é considerada aceitável ou não é uma questão delicada, dizem que diferença entre o remédio e o veneno está na dose. 

Para o avaliador, ao final de cada avaliação, vale a pergunta: “Você compraria esta empresa por este valor?” Se a resposta for absolutamente positiva ou negativa, muito provavelmente seja necessário revisar as premissas, mas pairando uma dúvida se compraria ou não a empresa, há um sinal de que este valor deve estar mais próximo daquilo que é justo. Paradoxalmente, nestes casos, o fato do avaliador estar em dúvida é que traz a confiança de que a avaliação deve estar correta.

A PENSAR...

Tomemos como exemplo as empresas de auditoria, será que elas deveriam ser contratadas pela própria empresa a ser auditada? Até que ponto o auditor estaria disposto a perder seu cliente em prol de uma análise correta de suas contas? 

___________________

Francisco Burckas é sócio da Crívah Finance, consultor financeiro certificado pela EFFAS (European Federation of Financial Analysts Societies) e executivo de finanças corporativas especializado em avaliação econômico-financeira de empresas, análise de investimento e modelagem financeira.

Certificado em Behavioral Finance (Duke University) se dedica ao estudo de finanças comportamentais e à importância da boa definição do propósito como principal ferramenta do processo de tomada de decisão e criação de valor.

Fonte: Assessoria



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