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MUNDO

07/12/2020

Historiador luso-brasileiro revela em livro saga açoriana na República Dominicana

Luiz Nilton Corrêa, antropólogo e historiador luso-brasileiro, é o autor do livro “Açorianos em São Domingos”, que conta a “saga dos migrantes micaelenses na República Dominicana em 1940”. O trabalho, editado pela “Letras Lavadas”, aborda a emigração nos Açores ao longo da sua história, com destaque para a emigração no período entre as duas grandes guerras mundiais.

Em entrevista à nossa reportagem, Luiz Corrêa falou sobre a emigração açoriana, mencionou em que contexto esse deslocamento dos açorianos para outros países ocorreu e ressaltou o processo de construção da narrativa da sua obra literária.

Como nasceu o livro?

Este trabalho é fruto da minha dissertação de mestrado realizada entre 2006 e 2008 na Universidade dos Açores, com orientação do Professor Carlos Cordeiro. Foi ele quem mencionou o tema e depois de uma breve pesquisa resolvi aprofundar e entender melhor tudo o que aconteceu naqueles anos com os açorianos, responder as muitas perguntas que surgiam ao longo das primeiras pesquisas.

O que a obra aborda?

O trabalho aborda especificamente todo o processo de emigração e repatriamento de um grupo de micaelenses que seguiu para a República Dominicana em 1940. No entanto, só é possível entender as motivações e consequências desta emigração compreendendo o contexto mundial na época. Segunda Guerra Mundial, o fluxo de refugiados de guerra e a ditadura de Trujilio na República Dominicana, além de toda a crise existente nos Açores naqueles anos. Era realmente uma situação excepcional que atingiu a Ilha de São Miguel em cheio e, consequentemente, todas as outras ilhas do arquipélago.

Quais as motivações do trabalho?

A emigração é um tema tão presente na história açoriana quanto a própria insularidade. Não há quem não tenha um parente ou conhecido próximo que não tenha emigrado, e não existe momento na história dos Açores que não tenha presenciado um movimento de populações para fora das ilhas. E eu, na época, estudante brasileiro na Universidade dos Açores, trabalhando para manter os estudos, era um imigrante tentando alcançar os meus objetivos. Não havia forma de não me identificar com aqueles homens que seguiram carregados de sonhos e esperanças para um destino desconhecidos.

O que podemos encontrar no seu trabalho?

Inicio o livro abordando a emigração nos Açores ao longo da sua história, com um aprofundamento maior sobre a emigração no período entre as duas grandes guerras mundiais. Criado este contexto, passo a explicar um pouco o que acontecia no mundo e na República Dominicana na época, a política de desenvolvimento económico daquele país voltado aos refugiados de guerra, sobretudo judeus fugidos da Alemanha Nazista. Apresento ainda um enquadramento da situação económica nos Açores, o eclodir da Segunda Guerra Mundial, a Crise do Ananás, a falta de emprego e os vários problemas que isto ocasionou em todo o arquipélago. É interessante, pois, justamente neste período que o então ex-presidente da República Dominicana, Rafael Trijillo, que ainda era considerado o mandatário daquele país, visitou os Açores e foi o suficiente para fazer com que, em poucos meses, dezenas de micaelenses mostrassem interesse em emigrar para São Domingos. É desesperador ler as notícias nos jornais, o fomento à emigração e depois as cartas escritas por estes emigrados, relatando fome, prisão, problemas dos mais diversos e até a morte de alguns destes micaelenses, segundo eles, de fome e desnutrição. Mas, ao mesmo tempo, é incrível perceber a mobilização das comunidades açorianas nos Estados Unidos da América, açorianos nas Bermudas e em outras paragens buscando notícias e formas de ajudá-los. Chegaram a fazer protestos nas comunidades açorianas na América, angariaram fundos, pressionaram o governo e ainda havia toda a questão diplomática, com os consulados e legações portuguesas na América Central a se mobilizarem até as primeiras notícias de que aqueles micaelenses seriam então trazidos de volta aos Açores. Poucos foram os jornais que transmitiam as notícias tristes destes emigrados em Portugal, com exceção do jornal A Ilha, que, desde o início, chamava atenção para a situação dos emigrados. Foram dezenas de cartas oficiais, documentos, pesquisa nos arquivos da PBARPD, no Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, BPARAH e até na Torre do Tombo. E, por último, ainda com um contato na própria República Dominicana foi possível conhecer o destino dos poucos que por lá ficaram, em duas páginas já no final da obra, acrescentadas recentemente, relata-se nas palavras de Milcíades Humberto Núñez Núñez, um pouco da presença açoriana naquele país. Ao final, uma lista completa dos micaelenses que solicitaram passaporte para emigração, com nomes, datas e informações muito interessantes para entender a situação dos mesmos nos Açores.

Onde será vendido o livro?

O livro foi publicado com o apoio da Direção Regional das Comunidades, do Governo dos Açores, e tem o selo da editora Letras Lavadas, que conta com uma livraria em Ponta Delgada, ao lado dos Paços do conselho. Além da Livraria, estou disponibilizando na Amazon.com em versão kindle e impressa. Ficando a U$9,90 a versão kindle e U$14,90 a versão impressa.

Fonte: Mundo Lusíada



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